Repasses dos custos dos cupons estrangulam as margens de lucro dos estabelecimentos; em menos de um ano, a fatia arcada pelos restaurantes saltou de menos de um terço para mais de dois terços do desconto total
Uma pesquisa inédita, feita pela PiniOn e pela Smart Research a partir da análise de mais de 2500 recibos reais de pedidos de delivery coletados na cidade de São Paulo mostra que Keeta e 99Food repassaram a maior parte dos custos de cupons e descontos oferecidos aos clientes para os restaurantes. O estudo revela uma inversão: quando iniciaram as operações na cidade, as plataformas bancavam a maior parte dos cupons; hoje, a fatia arcada pelos restaurantes saltou de menos de um terço para mais de dois terços do desconto total. A pesquisa foi feita a partir de análise de recibos coletados de estabelecimentos de São Paulo entre setembro de 2025 e setembro de 2026.
Na 99Food, em setembro, até 82% saía do bolso dos restaurantes e 18% da plataforma. Para um pedido médio de R$ 72 com desconto de R$ 26,98, o restaurante perdia até R$ 22,06; a 99Food subsidia apenas R$ 4,92.

Na Keeta, também em setembro, até 68,7% dos descontos foram arcados pelos restaurantes. Para um pedido de R$ 88 com desconto de R$ 37,49, até R$ 25,75 saíamdos restaurantes enquanto a Keeta contribuiu com R$ 11,74.

A pesquisa mostra que essa inversão não está apenas na proporção dos subsídios. Na 99Food, a fatia de pedidos em que o desconto é bancado exclusivamente pelo restaurante passou de 7,5% no início da operação para até 55,6% em setembro, na média; na Keeta, de 4,4% para 37,3%. Ao mesmo tempo, a fatia em que o desconto é bancado exclusivamente pela plataforma caiu de cerca de 56,3% para 11,1% na 99Food e de 45,6% para 22,5% na Keeta.
Desde o início das operações das plataformas no Brasil, restaurantes reclamam de descontos aplicados sem autorização ou embutidos em cláusulas de adesão automática nos contratos, comprometendo o faturamento.
A pesquisa confirma com evidências a preocupação que o CADE já registrou. Em nota técnica e estudo sobre o mercado de delivery divulgados em junho, o órgão registra que os subsídios dos cupons e descontos têm pressionado a sustentabilidade financeira dos estabelecimentos. O texto descreve medidas regulatórias já adotadas em outros países exatamente para coibir essa prática, que poderiam ser adotadas no Brasil: vedar a obrigação de restaurantes co-financiarem descontos e campanhas; exigir aviso prévio de sete dias antes de promoções; e proibir penalização de estabelecimentos que se recusem a participar.
O que a pesquisa evidencia no Brasil repete um padrão que os próprios técnicos do CADE analisaram no outro hemisfério. Na China, o regulador antitruste (SAMR) abriu investigação contra a guerra de preços entre plataformas após a própria Meituan, controladora da Keeta, reconhecer que subsídios duradouros distorceram o mercado — a guerra de cupons fechou 1,61 milhão de restaurantes só no primeiro semestre de 2025. Já em Hong Kong, a Comissão da Concorrência investigou a Keeta por cláusulas de exclusividade e restrições de preços; a empresa alterou os termos e formalizou compromisso com a autoridade em 2026. Após consolidar a liderança, elevou comissões para 30% e cortou em 35% a remuneração dos entregadores.
O iFood protocolou representação formal no Conselho Administrativo de Defesa Econômica pedindo a abertura de processo administrativo contra a Keeta, plataforma de delivery controlada pela Meituan, por práticas predatórias no mercado brasileiro.






