OPINIÃO A política – e o governo – é feita de gestos e símbolos

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Por Ricardo Callado

O mundo político é da mesma natureza que o universo poético. É povoado por crenças, convenções e símbolos. E gestos. E isto porque o político é o reflexo de uma imagem que a sociedade faz de si mesma. Concebe-se facilmente que ele seja solidário de símbolos e de mitos que sustentam esta representação.

E os gestos na política têm consequências. Para o bem ou para o mal. Mexer com símbolos é perigoso para qualquer governante. Os restaurantes comunitários, por exemplo, foi um gesto errado.

O simbolismo do gesto arranhou a imagem do governo. Foi um conselho errado. A economia gerada pela ação é simbólica. Mas o simbolismo do restaurante é grandioso. E o estrago maior ainda. E desnecessário. E ainda permitiu que outros faturem politicamente sobre o tema.

Não se constrói um governo apenas com rupturas. A união é o melhor caminho, principalmente em tempos de crise. O diálogo precisa vencer a discórdia.

O simbolismo das derrubadas é algo que pode marcar esse governo. Só não vê quem não quer.

E é preciso respeitar os símbolos. Eles são mais reais do que aquilo que simbolizam. O significante precede e determina o significado. Há um ponto onde o racional comunica com o mítico. Onde deriva toda uma constituição simbólica do laço social.

Alguém pode fazer no futuro um comparativo entre governos. Podemos partir de ciclos bem determinados, como: construir, lotear, regularizar, destruir, derrubar. Cada governo escolhe como melhor quer ser identificado e lembrado. É uma imagem forte da família no telhado, com dois filhos – sendo um com hidrocelafia, tentando que o governo não derrube a sua casa. Um ato de desespero. Uma imagem carregada de simbolismo.

A sociedade é iluminada por um complexo simbolismo, com vários graus de compactude e diferenciação. Não podemos fugir ao mito, mas podemos reconhecer a sua natureza de mitos e relacionar-nos com eles. O problema consiste em reconhecer nos mitos a sua realidade e não a realidade. A realidade do Buriti é uma. A da população, outra. E as duas realidades se chocam e não conseguindo um meio termo, traz prejuízos para os dois lados. Sendo que um deles tem prazo de validade, porque todo gesto tem sua consequência.

O governo precisa reconhecer a sua verdade e não em reconhecer neles a verdade. Em não introduzir neles o absoluto. Devemos demitificar o mito, mas não fazer da demitificação um mito.

Vencer uma eleição não é fácil. Mas governar é algo muito maior que beijar criancinhas. Rollemberg tem a sua sombra mitos e simbolismos políticos enraizados nas últimas três décadas no Distrito Federal.

O mito político não é simplesmente um fenômeno, uma pessoa, um partido ou uma ideia, mas sim a representação que se faz de determinados fenômenos, pessoas ou ideias. A elaboração de um mito acontece sobremaneira a partir da contínua repetição e reelaboração de uma imagem.

Pensar o discurso político atual a partir desta perspectiva permite perceber como fontes importantes de análises, artifícios diversos como discursos, gestos, fotografias, vídeos, dentre outros artefatos materiais que fomentam a elaboração de discursos e possibilita perceber como estes elementos podem ser manuseados a partir de uma intenção específica

Rollemberg só pode obter rápido sucesso caso tenha uma maneira de exprimir suas ideias, um simbolismo próprio. Podendo ser aceito, de forma rápida e uniforme, por um grande número de pessoas. Aprender a comunicar-se. Por enquanto, coleciona simbolismos negativos e derruba mitos, ao invés de cria-los.

A comunicação constitui-se como uma fonte de poder que se confronta com outros poderes, inclusive o político. Pode facilitar a maior adesão possível a uma ideia ou a uma causa. Sem ela, o governo torna-se uma ilha. Isolada da realidade e da sociedade.

A comunicação precisa ir além de informar. Precisa levar valores, sentimentos, sonhos, fantasias, enfim a dimensão imaterial que promove a diferenciação. E isso é possível. O governo precisar acertar nos gestos e nos simbolismos.

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