Diplomacia brasileira defende que a situação do senador seja conduzida pelo Judiciário, enquanto o Palácio do Planalto acompanha os possíveis reflexos da viagem nas relações com Washington
Da Redação
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende adotar uma postura de cautela diante da chegada do senador Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos e dos possíveis desdobramentos diplomáticos do episódio. A orientação no Palácio do Planalto e no Ministério das Relações Exteriores é evitar manifestações que possam ampliar as tensões com o governo de Donald Trump.
Flávio chegou a Miami na quarta-feira (28/10), acompanhado da esposa e das filhas, após deixar o Brasil por uma rota que incluiu passagem pela Argentina e escala no Equador.
A viagem ocorreu depois de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes do parlamentar à Polícia Federal (PF) e impôs restrições à sua saída do território brasileiro.
Aliados do senador classificam as medidas judiciais como perseguição política. O governo brasileiro, por sua vez, busca manter o episódio no âmbito das instituições responsáveis pela investigação e pelo cumprimento das decisões judiciais.
Itamaraty evita envolvimento direto no caso
Segundo informações divulgadas pelo portal Metrópoles, interlocutores do Ministério das Relações Exteriores avaliam que a situação de Flávio Bolsonaro deve ser acompanhada inicialmente sem intervenção diplomática.
Fontes ouvidas sob condição de anonimato afirmaram que a viagem é considerada um “assunto da alçada exclusiva do Poder Judiciário”.
O entendimento é de que cabe às autoridades judiciais brasileiras decidir sobre eventuais providências relacionadas ao descumprimento das restrições impostas ao senador.
A orientação também procura evitar que o caso seja transformado em um novo foco de atrito entre Brasília e Washington.
Saída do Brasil ocorreu após decisão de Moraes
A determinação de entrega dos passaportes foi adotada sete minutos após a divulgação do resultado final das eleições o que acendeu o alerta de perserguição política por parte do STF e da Polícia Federal de Lula
A ordem judicial não foi cumprida dentro do prazo estabelecido, e o senador deixou o Brasil aproximadamente dois dias após o segundo turno das eleições presidenciais.
De acordo com os relatos publicados, ele teria utilizado um passaporte italiano durante o deslocamento internacional.
Antes da chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, uma autoridade do Departamento de Estado norte-americano informou que seriam emitidos vistos para o senador e seus familiares.
A decisão foi interpretada por interlocutores políticos como uma demonstração de aproximação entre o governo Trump e a família Bolsonaro.
O anúncio também ocorreu em meio a declarações sobre a possibilidade de o parlamentar solicitar asilo político em território norte-americano.
Relação entre Brasil e Estados Unidos já enfrenta tensões
O episódio acontece em um momento de dificuldades nas relações diplomáticas e comerciais entre os dois países.
O governo brasileiro acompanha os efeitos das medidas tarifárias adotadas por Washington e as manifestações de Donald Trump sobre o processo eleitoral brasileiro.
O presidente norte-americano apresentou acusações de irregularidades nas eleições, mas não foram divulgadas provas que comprovassem fraude capaz de alterar o resultado oficial.
No Palácio do Planalto, a avaliação relatada por interlocutores do governo é de que a relação com os Estados Unidos representa um dos principais desafios do novo mandato de Lula.
Por essa razão, a orientação é evitar que a situação individual de Flávio Bolsonaro provoque uma escalada de declarações entre os dois governos.
Outro aspecto acompanhado pelo governo brasileiro é a possibilidade de Flávio Bolsonaro utilizar sua permanência nos Estados Unidos para intensificar articulações políticas contra a administração petista.
Após desembarcar em Miami, o senador divulgou uma carta na qual contestou o resultado das eleições presidenciais e anunciou que pretende liderar a oposição brasileira a partir do exterior.
O documento também apresentou críticas ao Supremo Tribunal Federal e agradecimentos a Donald Trump e ao presidente argentino Javier Milei.
Para interlocutores do Planalto citados pela reportagem, a aproximação entre integrantes da família Bolsonaro e autoridades norte-americanas pode acrescentar dificuldades à relação bilateral.
Apesar dessas preocupações, a posição atribuída ao governo brasileiro neste primeiro momento é de preservar os canais diplomáticos e deixar eventuais medidas relacionadas ao senador sob responsabilidade do Poder Judiciário.






