OPINIÃO // Lula deve desculpas a esquerda brasileira

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O ex-presidente Lula precisa medir suas ações. O seu discurso beligerante pode levar o País ao caos.

Manifestações exaltadas a seu favor, pela militância, podem gerar reações. E vão gerar. E a sociedade que vai pagar novamente. E a democracia.

O momento sugere cautela, calma, bom senso. É prestigiar as instituições. A esculhambação não ajuda. De ambos os lados.

É mentira dizer que ele sempre esteve à disposição da Justiça. Ele tem usado todos os meios para escapar dela.

Lula precisa falar a verdade. Se peticionou ao Supremo Tribunal Federal para não depor, a dedução é que ele não iria depor naturalmente.

Ao invés de fazer o mea culpa, reapareceu o velho Lula de palanque. A jararaca, no dizer dele. Que foi atacada pelo rabo, não pela cabeça. Isso só faz atiçar as alas.

Lula fez um emocionado discurso. Para a militância. Para os convertidos. Vitimizou-se. E atacou elites, imprensa, Judiciário e Polícia Federal.

Porque sempre foi assim. Para sobreviver, elege inimigos. E divide o País entre os bons (quem está ao seu lado) e os ruins (quem não concorda com seus métodos).

O Dia D será 13 de março. Será um termômetro para aferir a temperatura social.

O PT convoca suas bases para reagir nas ruas. Mas é bom lembrar que ninguém está acima da lei. Nem Lula. Nem FHC. Nem qualquer ex-presidente.

Manifestações favoráveis ou contrárias não mudarão os fatos ou o devido processo legal. Mas faz parte do jogo. Pode acelerar um impeachment da presidente Dilma. Mas quanto a Lula, não muda nada. O Judiciário seguirá seu curso normal.

É preciso ter tolerância com aqueles que estão indignados. Estão no direito democrático de expressar o que bem desejam ou pensam. Mas dentro dos limites.

Boa parte das críticas ao trabalho da Lava Jato deve-se a uma ignorância profunda das leis e das regras de um Estado Democrático de Direito.

Os delegados e procuradores em Curitiba investigam tecnicamente, sob a supervisão de um juiz competente e sério.

Quem prestou atenção, sem lentes ideológicas, já sabia o que viria a acontecer, cedo ou tarde. Lula é o alvo porque é o chefe. E foi quem mais se beneficiou.

Personagens como Lula não percebem que a justiça não se verga mais com tanta facilidade aos desígnios políticos e econômicos de oligarcas.

Essa soberba vale para Lula, Marcelo Odebrecht, Eduardo Cunha, Renan Calheiros. A lista é longa. Está na justiça.

Lula pode desprezar a imprensa e achar honestamente que não precisa se explicar. Isso não muda os fatos e a investigação criminal sobre ele.

Ao recorrer ao STF argumentando que Curitiba não poderia investigá-lo, Lula queria impedir a operação de sexta-feira. Não deu certo.

Lula contava com a ajuda de um Supremo que ajudara a fazer. Em outros tempos, talvez desse certo.

Pelas regras tradicionais da política, Lula estava certo. Teria influência para paralisar as investigações. Mas o Brasil de 2016 é outro.

É um Brasil que prossegue imperfeito e injusto, mas é um Brasil em que cada vez mais todos são iguais perante a lei.

Há fundada suspeita de corrupção passiva e lavagem de dinheiro cometida por Lula.

É muito simples: por que três dos principais beneficiários do petrolão bancaram reformas em imóveis claramente destinados a Lula?

Odebrecht e OAS, duas das líderes do cartel do petrolão, e Bumlai, o amigo de Lula, que também operava o esquema, bancaram os imóveis.

No mesmo período em que fizeram esses pagamentos, esses três prosperavam com o petrolão – esquema viabilizado graças à caneta de Lula.

Os pagamentos dos três líderes do petrolão, portanto, não eram uma doação desinteressada a Lula. Eram vantagem indevida – corrupção passiva.

É essa interpretação das provas e dos fatos que faz a Força-Tarefa da Lava Jato.

Há fortes evidências de que Lula recebeu vantagens indevidas de Odebrecht, OAS e Bumlai – e fortes evidências de que tentou escondê-las.

Há evidências contra Lula, portanto, de corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Há autoria e materialidade.

Os investigadores, portanto, estão em busca de mais elementos sobre esses fatos criminosos.

E o caldo tende a engrossar. Mais duas delações devem atingir Lula e Dilma.

Um é do mensaleiro Pedro  Corrêa. Ele diz que Lula sabia tudo sobre o petróleo. O ex-presidente do PP está preso e em Curitiba.

A outra delação pode vir de dentro do próprio PT. Seria a primeira do partido.

A dona da agência Pepper Interativa, Danielle Fonteles, está em conversas avançadas com investigadores para fechar um acordo de delação premiada.

A Pepper participou das campanhas petistas em 2010 e 2014 e pode ajudar tanto nos trabalhos da Operação Acrônimo como na Lava Jato.

Para a Acrônimo, Danielle promete entregar informações sobre o governador mineiro Fernando Pimentel, sua mulher, Carolina de Oliveira, e o empresário Benedito de Oliveira.

Na Lava Jato, ela poderia explicar o uso de recursos de caixa dois em campanhas do PT provenientes das empreiteiras Andrade Gutierrez, OAS e Queiroz Galvão.

Isso porque a Pepper foi passagem de dinheiro usado nas duas últimas eleições nacionais.

Danielle ficou muito próxima de um dos principais assessores e coordenadores das campanhas da presidente Dilma Rousseff, Giles Azevedo.

Os investigadores querem saber até que ponto as informações da publicitária podem complicar a vida do Planalto.

O PT perdeu o discurso. E PT perdeu a razão. Agora acusa que vivemos um golpe aplicado pela dobradinha Judiciário-mídia?

Que é golpe uma operação policial autorizada pela Justiça?

Que é um “atentado ao Estado de Direito” o cumprimento pela polícia da ordem judicial de ouvir Lula? Ele não pode ser ouvido?

Que Lula “foi sequestrado por Moro” só por ter sido levado para depor em local seguro na companhia de advogados dele?

Que foi “um desrespeito ao STF” a execução de uma ordem de outra instância da Justiça? O PT debocha da inteligência coletiva.

Enquanto o PT bate na polícia e na Justiça, o que ocorre aqui é reconhecido no mundo como uma prova de vitalidade de nossa democracia.

Se Lula nada deve, nada deveria temer. Se foi injustiçado, os brasileiros saberão reconhecer mais tarde que foi e ficarão ao seu lado.

Se qualquer um de nós pode ser convocado ou levado para depor por que Lula não? No que ele é melhor do que nós?

Lula e o PT humilham sua militância quando a engana e a força a sair em defesa do indefensável.

Quando o PT se dará a chance de reconhecer seus graves erros e de tentar começar tudo de novo?

Lula fez mais danos à esquerda brasileira do que ela quer admitir. Do que ela um dia admitirá.

Lula deveria ter a honradez de pedir desculpa àqueles que de forma honesta levantam os ideais da esquerda.

Perdeu a chance de entrar para a história e mudar, de verdade, o rumo do País. Destruiu o sonho de muitos militantes de esquerda ao preferir se lambuzar com o dinheiro público. Não fez igual a outros governos corruptos. Fez pior ao institucionalizar a corrupção.

Para encerrar, fica o desabafo dito pelo próprio Lula sobre o tríplex de Guarujá e o sítio de Atibaia: “Isso é preconceito. Todo mundo pode, menos essa merda desse metalúrgico”.

E também dito por Lula: “Eles que enfiem no cu todo esse processo”.

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