Major da reserva Rafael Rozenszajn fala sobre o ataque terrorista que assassinou 1200 pessoas e sequestrou outras 250, rebate acusações de genocídio e aguarda respostas efetivas do Hamas ao ultimato de Trump
Quando o major da reserva Rafael Rozenszajn, primeiro porta-voz em português das Forças de Defesa de Israel (FDI), tenta fazer com que brasileiros compreendam a dimensão do ataque terrorista perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, ele recorre a uma imagem brutal: “Imagine o estádio do Maracanã completamente lotado. Agora imagine que 80% das pessoas ali são fuziladas ou ficam feridas, 17% são assassinadas e 3% são sequestradas. Agora multiplique isso por dois. Foi isso que aconteceu em Israel naquele dia.”
Dois anos depois do maior ataque contra judeus desde o Holocausto, o advogado especialista em direito internacional e autor do livro “Guerra de Narrativas” relembra os detalhes de uma manhã que mudou Israel para sempre e contextualiza o momento crítico que o conflito atravessa agora, às vésperas do ultimato estabelecido pelo presidente americano Donald Trump ao Hamas.
Foram mais de 1.000 mortos, 251 sequestrados e mais de 5 mil feridos em poucas horas naquele 7 de outubro. “Mais de 5 mil terroristas palestinos liderados pelo Hamas invadiram o território israelense por terra, mar e ar”, conta Rozenszajn. “Eles fizeram 114 rompimentos com explosivos na cerca de fronteira, que tem 60 quilômetros de extensão, e dispararam mais de 4 mil foguetes enquanto avançavam.”
O ataque teve alvos civis específicos: centenas de jovens que participavam de um festival de música eletrônica no sul de Israel foram massacrados, além de dezenas de kibbutzim e comunidades que foram invadidas simultaneamente. “Vítimas foram arrancadas de suas camas, pessoas foram queimadas vivas, houve decapitações, bebês foram assassinados, mulheres foram estupradas, idosos foram agredidos e casas foram incendiadas”, detalha o carioca, cujo papel desde então tem sido apoiar a comunicação das FDI em países de língua portuguesa.
O terror documentado e celebrado
O que torna o ataque de 7 de outubro particularmente perturbador é que tudo foi meticulosamente registrado. “Os terroristas usavam câmeras acopladas nos capacetes e transmitiram suas ações ao vivo, online. Era parte de uma guerra psicológica deliberada para criar pânico e desespero”, explica Rozenszajn.
Ele relembra um caso específico que exemplifica a natureza do ataque: “Interceptamos uma conversa telefônica de um terrorista chamado Mahmoud, que atacou o kibbutz Mefalsim. Ele ligou para sua família em Gaza contando orgulhosamente que havia assassinado 10 judeus com suas próprias mãos.”
Documentos encontrados nos corpos dos terroristas continham instruções explícitas: matar o maior número possível de judeus, fazer reféns e aguardar novas ordens. “Esta é a fase mais cruel do terrorismo: o êxtase dos perpetradores durante o massacre, comemorando suas atrocidades como conquistas”, analisa.
Para o porta-voz, não há ambiguidade sobre os objetivos. “Os próprios líderes do Hamas afirmam, sem disfarces, que atacar civis israelenses sempre foi seu objetivo. Não precisamos interpretar. Eles mesmos dizem.”
O ultimato de Trump e a espera por um acordo
Dois anos depois daquele amanhecer sangrento, o conflito desencadeado pelo ataque terrorista chega a um momento decisivo. Na sexta-feira (3/10), o presidente norte-americano Donald Trump estabeleceu um ultimato ao Hamas: o grupo teria até às 19h00 (horário de Brasília) do domingo, 5 de outubro, para aceitar a proposta de cessar-fogo apresentada em 29 de setembro. Caso contrário, Trump prometeu que o Hamas sofrerá “consequências severas”. A proposta oficial apresentada traz 20 pontos, entre os quais exige que o Hamas liberte todos os reféns israelenses restantes e que as forças militares israelenses comecem a se retirar de partes da Faixa de Gaza em fases. Das 251 pessoas sequestradas em 7 de outubro, 48 ainda permanecem em cativeiro em Gaza, sendo que se estima que apenas 20 estejam vivas.
Em resposta, o grupo terrorista palestino apresentou horas depois uma carta em que afirma aceitar parte do plano para encerrar a guerra na Faixa de Gaza. Entre os tópicos aceitos, está a libertação total de reféns e a entrega da administração do enclave. Porém, deixa em suspenso a condição de desarmamento, uma das exigências centrais feitas por Israel e pelos EUA.
“Outras questões mencionadas na proposta do presidente Trump sobre o futuro da Faixa de Gaza e os direitos legítimos do povo palestino estão conectadas a uma posição nacional unificada e às leis e resoluções internacionais relevantes”, disse o Hamas. O grupo completa que “elas serão abordadas por meio de uma estrutura nacional palestina abrangente, na qual o Hamas participará e contribuirá de forma responsável”.
Questionado sobre as expectativas em relação ao acordo, Rozenszajn é categórico sobre os objetivos de Israel, que permanecem inalterados desde o início do conflito. “O foco desde o princípio permanece sendo a libertação de todos os reféns, os vivos e os corpos dos que foram assassinados, a neutralização da ameaça representada pelo Hamas através do desmantelamento de sua capacidade militar, e a garantia de que o Hamas não retorne ao governo da Faixa de Gaza.”
É aguardado que as conversas lideradas pelos EUA evoluam ao longo da semana, com uma possível libertação de todos os reféns vivos ainda em poder do Hamas nesta terça-feira, 7 de outubro – mesma data em que o massacre perpetrado pelos terroristas aconteceu em 2023.
Rebatendo acusações de genocídio
Desde o início da guerra, Israel tem enfrentado duras críticas internacionais, incluindo acusações de cometer genocídio e de usar a fome como arma de guerra contra a população civil de Gaza. O porta-voz rejeita veementemente essas alegações.
“Esta guerra não é dirigida contra o povo palestino, mas contra o grupo terrorista Hamas”, enfatiza Rozenszajn. “Sempre que possível, emitimos avisos aos civis da Faixa de Gaza para que se desloquem de áreas que serão alvo de operações militares para áreas seguras. Civis nunca são alvos das Forças de Defesa israelenses.”
Ele detalha os protocolos adotados: “Empregamos armamentos de alta precisão para reduzir os danos potenciais à população civil e usamos ferramentas de inteligência direcionadas para garantir que apenas alvos militares, em conformidade com o direito internacional, sejam atingidos.”
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, a ofensiva militar israelense resultou na morte de mais de 60 mil palestinos em quase dois anos de conflito, sem contudo identificar nesses números divulgados quantos seriam combatentes. As autoridades israelenses, por sua vez, estimam que desse total, 25 mil eram integrantes do Hamas, enquanto outras cerca de 12 mil mortes correspondem a falecimentos por causas naturais, considerando a média estatística registrada em Gaza antes da guerra.
Escudos humanos e desinformação
Para Rozenszajn, a complexidade da situação em Gaza é amplificada pela tática do Hamas de usar a população civil como escudo. “É preciso reconhecer que, em qualquer zona de conflito, a população civil inevitavelmente sofre as consequências da guerra. Embora consideremos o sofrimento civil uma tragédia, é importante salientar que a sua proteção é uma prioridade nas operações das FDI.”
O porta-voz acusa o Hamas de conduzir campanhas sistemáticas de desinformação. Ele cita como exemplo as alegações do grupo sobre a falta de espaços adequados nas zonas humanitárias para receber moradores evacuados. “Ao contrário do que o Hamas afirma, existem espaços disponíveis na área humanitária para a instalação de abrigos e tendas. Não acreditem em suas mentiras!”
Segundo Rozenszajn, os terroristas do Hamas utilizam civis como escudos humanos, impedindo que deixem áreas de conflito como uma ferramenta de resistência. “O Hamas busca manter civis em áreas de perigo, utilizando-os como peças no tabuleiro da guerra para alcançar seus objetivos violentos. A organização terrorista está prejudicando as famílias de Gaza, impedindo-as de buscar refúgio em locais seguros”, denuncia o major.
Ele reforça que a postura israelense está “em conformidade com o direito internacional”, que exige o aviso prévio antes dos ataques e a solicitação de evacuação dos civis. Isso também demonstra a preocupação de Israel com a proteção da população local.”
A escolha pelo futuro
Questionado sobre como Israel absorveu o impacto de uma tragédia dessa magnitude, Rozenszajn traça um paralelo histórico: “Assim como o povo Macabeu enfrentou um império que visava a destruição do povo judeu e lutou por sua fé, liberdade e identidade, nós também enfrentamos inimigos que querem nos destruir. E assim como eles, escolhemos resistir. Mais do que resistir: escolhemos florescer.”
Para ele, essa é a diferença fundamental. “Enquanto o Hamas investe na morte e na destruição, investimos na vida, no futuro e no desenvolvimento. Essa é a verdadeira vitória do povo de Israel, ontem, hoje e sempre.”
Dois anos depois do ataque que equivaleria a 140 mil vítimas no Brasil, considerando as proporções populacionais, Israel enfrenta o desafio de honrar seus mortos sem se deixar paralisar pelo ódio. “Devemos sim lembrar dos ataques e honrar cada vítima”, conclui Rozenszajn. “Mas sobretudo devemos mostrar que jamais conseguirão apagar nossa esperança e nossa vontade de viver.”
Enquanto o relógio avança para o ultimato de domingo, resta saber se o Hamas aceitará todos os termos propostos, inclusive sua desmilitarização, ou se optará por enfrentar as consequências prometidas pelo presidente americano.



