Em Caligrafia das nuvens (Patuá), Carla Andrade leva-nos a um passeio pela infância, pela roça, pelo amor, pela violência e, tudo isso, amparada pela memória. “Memória que sublinha as imagens, guardadas, tesouros que capturou da efemeridade das nuvens. É registro que quer eternizá-las. Mas a memória, sabemos, é uma espécie de traição, embora seja o mais próximo que podemos ter de retrato do passado, ainda que sua matéria seja um tanto de imaginário, de seleção”, define a poeta Adriane Garcia no prefácio da obra.
O livro, que será lançado no dia 27 de junho, no Martinica Café, em Brasília, tem ainda orelha assinada pelo cantor, músico e compositor Leoni: “A natureza, a família, o erotismo, a rotina, o ar seco de Brasília, o amor que falta e o que brota dão o tom do universo poético de Carla de Andrade, em Caligrafia das nuvens, seu quarto livro. Tanto a doçura quanto a força inflamável desses temas são costuradas por uma escrita íntima e sincera”.
Carla Andrade é mineira de Belo Horizonte. Tem três livros publicados: Conjugação de Pingos de Chuva (LGE), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Voltagem (7letras). Participou de diversas antologias poéticas como na Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix & super-heróis de gibi (Patuá), Fincapé, Contemporâneas (Vida Secreta), além de ter poemas publicados em várias revistas de poesia contemporânea: Mallarmargens, Germina, a portuguesa InComunidade, entre outras. Está em Brasília desde 2000, e atua como jornalista e poeta.
Uma degustação de Caligrafia das Nuvens
Moinho
Se amanhecer:
o prato esmaltado
e o sangue depenado
em cova rasa,
a galinha mais lenta.
As linguiças enforcadas
expostas por seus crimes
no estandarte da cozinha,
o porco mais gordo.
Lambança do chiqueiro,
a lavagem – cevada de
bicho de pé, berne, barbeiro,
sanguessuga.
A descontinuidade da vida
resolvida no erotismo do moinho,
no gozo exterminado do moedor.
A violência da roça.
É disso que preciso.
Tamborzinho
Depilação.
Ela cobrou mais barato porque
me machucou.
Calcinha vermelha para substituir a outra
vermelha furada. Foi barato.
Livro do Henry Miller que seu tio
me emprestou.
O sotaque da Karina Buhr.
A gente curtia.
Comprei o rapé da tribo indígena
que você disse. Dava onda.
Você não veio.
Eu desmilinguida.
Ainda sentada no cajón
que você pintou
e achou fera.
Não sei batucar.
Nossa primeira viagem
Nova caligrafia de nuvens
o sol e sua esgrima de raios
bromélias como cataporas nas montanhas
e o caleidoscópio nos seus olhos.
É manhã – e a eternidade cabe na distância
entre nossos pés delicados.
Seu lado da cama
Com o tempo tudo foi substituído
no seu tempo. Acho pouco: o tempo.
A casa é a mesma
o sangue nos meus ossos também.
Mas a varanda não tem você fumando
(você ainda fuma?)
mais comigo.
Levaram anos para suas cinzas
não se confundirem com as minhas.
Achei que as cinzas não seguiam o tempo.
Ainda fico na varanda no seu tempo,
as músicas são as mesmas.
Não se faz mais músicos
como antes (as pessoas dizem, eu também.
nem consigo dizer).
Dizem que penso em você quando
olho as plantas crescendo.
Eu gaguejo:
não quero que essa noite comigo termine nunca.



