ARTIGO | O trânsito é reflexo da sociedade que o cerca, por Ederson Marques

Pensar e querer uma cidade melhor são desejo e direito de todo cidadão. Os pesados impostos pagos ao governo quase nunca retornam em serviços de qualidade. As autoridades, em sua maioria, não conseguem devolver tudo aquilo que retiram do trabalhador, obrigando-o a contratar serviços privados de educação, saúde e até mesmo segurança. Tudo isso é senso comum e se escuta em cada roda de conversa em bancas de revista. Mas da parte do cidadão? Como o outro lado se comporta para fazer de sua cidade um lugar melhor para se viver?

O trânsito é um bom parâmetro para observações de comportamentos. As regras para quem dirige um veículo ou guia uma motocicleta são simples. Não há tantos complicadores para colocar a cabeça do cidadão em xeque. E se tomarmos o comportamento dos motoristas pelas vias do Distrito Federal, fica fácil perceber que a sociedade motorizada está longe da civilidade. Desrespeito, má educação, estresse e, sem exagerar, criminalidade.

O motorista que se propõe a seguir regras e “andar na linha” passa a fazer parte de uma minoria. Faça o teste. Dirija sempre na velocidade proposta pela via e perceberá o quanto a sociedade motorizada está bárbara. Se você segura seu carro a 60km/h, em uma via em que o limite de velocidade é esse, outros passam a 80km/h e até mesmo 100km/h. Alguns até buzinam e jogam o braço para fora da janela. Um verdadeiro horror.

Estudos já divulgados por departamentos de trânsito mostram que em uma viagem de 30 minutos, o motorista que for agressivo no trânsito pode ganhar apenas 5 minutos em sua viagem. Nos outros 25 minutos em que dirigiu de forma imprudente, no entanto, o risco de acidente aumenta mais de 50%. Velocidade acima do permitido, avanço de semáforo, ultrapassagem pela direita, desrespeito à faixa de pedestre… São muitas as infrações cometidas no período que colocam em risco a vida de terceiros.

Agora, as vantagens para quem se propõe a cumprir as regras de trânsito são muitas. Começa pela diminuição do risco de se envolver em um acidente, passando pela manutenção de peças do veículo até chegar ao bolso do cidadão. Isto porque a direção defensiva consome menos combustível que a direção agressiva. Em tempos de crise econômica, esta notícia deveria ser uma atração e tanto para que o trânsito fosse um pouco mais lento na capital.

Fala-se em lei seca e outras punitivas ao motorista. E elas ainda são necessárias, pois o desrespeito é geral. Mas fica a indagação simples e conclusiva: como cobrar atitudes decentes das autoridades públicas se ainda não somos capazes de seguir regras simples no cotidiano do trânsito? Experimente mudar de atitude e, assim, talvez um dia possas, de fato, bradar pelos quatro cantos que o político A ou B não respeita o cidadão e não devolve os tributos pagos em forma de serviços de qualidade. E lembre-se: vias públicas não são autódromos.


(*) Ederson Marques é jornalista e especialista em Ciência Política.

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