ANÁLISE POLÍTICA | Lavando as mãos

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Por Mara Paraguassu

Depois de hesitar, o PSDB resolveu trabalhar para tirar a presidente Dilma Rousseff da presidência da Republica. Tudo consumado na Câmara com evidencias de desfecho igual no Senado, o partido agora lava as mãos. Não quer responsabilidade na gestão Michel Temer, que se prepara para ser o chefe da nação, a comandar uma transição complicada, com mais de dez milhões de desempregados e com a confiança da população na capacidade dos políticos resolverem graves problemas do país abaixo do chão. O que não é bom para o governante e tampouco para governados.

 

O PSDB cai fora, o PSB anuncia o mesmo caminho, sobram então legendas de pequeno porte, algumas sem um tico de credibilidade, quadro técnico e histórico de contribuição positiva ao país, como o PP, o que tem maior número de envolvidos na Lava Jato e arruinou a possibilidade de Dilma Rousseff alcançar os votos que precisava na Câmara dos Deputados.

 

Bandeou-se, claro, para Temer, que diz preferir a discrição, mas informações aqui e ali dão conta de preocupante condução na formação de seu eventual governo. Se o fermento da orquestra sob seu comando for o balcão de negócios de sempre, o toma-lá-dá-cá responsável por grande parte do descrédito na política, a transição nasce contaminada e a oportunidade de mudança existente hoje na formação das alianças será perdida.

 

O PSDB poderia fazer alguma diferença. Mas a narrativa política que a legenda tucana expressa é a da pusilanimidade. E não é de hoje. Nunca se sabe direito o que querem os tucanos. Divididos como qualquer partido, mas sem firmeza para sustentar estratégia coletiva para novamente ocupar o poder central, o PSDB vagueia indeciso em grave momento da vida pública nacional.

 

Não apenas por falta de coragem. É o cálculo eleitoral em jogo: o PSDB, ou parte expressiva de suas lideranças, de olho nas eleições de 2018, não quer pagar o preço de uma transição que poderá falhar na emergência de medidas a ser adotadas.  Medidas impopulares inclusive. São o caso do senador Aécio Neves e governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, que já anteciparam a porção Pôncio Pilatos, para eles bastando que a legenda empreste apoio ao PMDB e Temer no Congresso Nacional.

 

O PSDB deveria então dizer a Michel Temer, convidado a integrar o governo com bons nomes de que dispõe, que seria incoerente ser parceiro de alguém que pode ser cassado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como resultado de ação de perda de mandato da chapa Dilma-Temer, proposta por ele próprio, PSDB. Talvez encontre aí uma narrativa plausível, e convença seu eleitorado de que faz todo sentido se apartar da união de forças políticas para superar a crise econômica, moral e política.

 

A desculpa de Aécio Neves de que o partido “não se vinculará à lógica de ministérios”, é só aparente preocupação com o fisiologismo. Na verdade, prevalece a lógica eleitoreira, a lógica da disputa partidária simplesmente, e não os interesses nacionais, o clamor do país.

 

O senador José Serra achou “bizarro” o PSDB ajudar no afastamento de Dilma e agora “fugir as suas responsabilidades”. Individualmente faz seu cálculo eleitoral – ganhando um ministério, como tem se especulado, talvez possa alcançar a visibilidade para colocá-lo em condição de disputar com proeminências tucanas da vez a candidatura para presidente em 2018. Mas seu discurso, e mais recentemente do deputado federal Carlos Sampaio, indica espírito público, o único que deveria prevalecer em momento difícil para o Brasil.

 

O PSDB decidirá se participa ou não do governo Temer em 3 de maio. Até lá, com as declarações dissonantes de suas lideranças, acrescentou à narrativa política mais uma pitada de tibieza. Não é à toa que Aécio Neves murchou nas pesquisas.

 

O Brasil precisa de união e renúncia dos interesses individuais para repor as coisas no lugar. Para recuperar a capacidade de crescimento, utilizando-se de quadros com estatura técnica e moral. O agir oportunista e de curto prazo, pensando na eleição de 2018, só agrava a situação e o sentimento crescente na sociedade brasileira de que os partidos para nada mais servem, a não ser brigar pelo poder, ocupando a esfera pública para urdir elevados ganhos de interesse privado.

* Mara Paraguassu é jornalista desde 1989 e escreve sobre política, Amazônia, cidadania

Email: maraparaguassu1@gmail.com

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