Valorização da moeda americana após as eleições impulsiona preços de commodities agrícolas e preocupa consumidores; especialistas alertam que efeitos podem chegar aos supermercados
Da Redação
A valorização do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa a pressionar os preços de produtos agrícolas no Brasil. Soja, milho, açúcar, trigo e café estão entre as commodities afetadas pelo movimento cambial, que poderá provocar novos aumentos nos preços dos alimentos.
Embora o dólar mais alto favoreça parte dos produtores e exportadores brasileiros, o movimento também eleva os custos de matérias-primas utilizadas pela indústria alimentícia.
Segundo economistas e analistas do setor, a permanência da moeda americana em níveis elevados aumenta a possibilidade de reajustes para o consumidor, especialmente em produtos como pães, massas, açúcar, café e carnes.
Na semana seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais, o dólar acumulou valorização de 9,2%. Na terça-feira (3), a moeda chegou a R$ 5,486, maior cotação desde dezembro de 2025.
Na quarta-feira (4), houve uma redução de 0,65%, com o dólar cotado a R$ 5,45.
Dólar alto pode pressionar preços nos supermercados
O economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), explica que o impacto sobre os alimentos depende, principalmente, do tempo em que o câmbio permanecer elevado.
“Quanto mais tempo o dólar permanecer acima do pré-eleição, maior é a probabilidade de ter algum impacto nos preços”, afirmou.
A relação ocorre porque diversos produtos agrícolas brasileiros possuem preços influenciados pelo mercado internacional.
Quando o dólar sobe, as exportações podem se tornar mais vantajosas para os produtores, o que tende a valorizar as mercadorias também no mercado interno.
No caso da soja e do milho, os efeitos podem atingir indiretamente os preços das carnes, já que os dois produtos são utilizados na alimentação de animais.
Soja registra alta de 3,8% após as eleições
Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que a valorização do dólar aumentou a competitividade da soja brasileira no exterior.
Com maior interesse de compradores internacionais, os preços internos voltaram a subir.
Na quarta-feira (4), a saca de 60 quilos de soja foi cotada a R$ 152,21 no Paraná.
O valor representa uma alta de 3,8% em relação aos R$ 146,69 registrados em 23 de outubro, antes do segundo turno das eleições.
Segundo o Cepea, o movimento levou as cotações novamente aos níveis observados no início de outubro.
O analista Gabriel Viana, da consultoria Safras & Mercado, explica que a formação dos preços internacionais influencia diretamente o mercado brasileiro.
“Teve algumas altas até bem expressivas de soja em grão e milho, porque os preços da maioria das commodities que a gente exporta são feitos de fora para dentro”, afirmou.
Milho também fica mais caro e pode afetar preço das carnes
O milho apresentou movimento semelhante ao da soja.
Na região de Campinas, em São Paulo, a saca de 60 quilos foi negociada a R$ 66,47 na quarta-feira (4), segundo o Cepea.
O preço representa aumento de 3,4% em comparação aos R$ 64,27 registrados em 23 de outubro.
A valorização do milho preocupa especialmente as cadeias produtivas de aves e suínos, que utilizam o cereal como um dos principais componentes da alimentação animal.
Caso os custos permaneçam elevados, parte do aumento poderá ser incorporada aos preços finais das carnes.
Esse repasse, entretanto, depende de fatores como oferta, demanda, custos de produção e capacidade das empresas de absorver despesas adicionais.
Açúcar acumula sequência de 15 semanas de valorização
O açúcar também registra aumento nas cotações.
De acordo com o Cepea, a valorização do dólar intensificou o movimento de alta do açúcar cristal no mercado paulista durante a última semana de outubro.
Entre os dias 26 e 30, a saca de 50 quilos do açúcar cristal branco apresentou preço médio de R$ 128,57, aumento de 2,3% em relação à semana anterior.
Foi a 15ª semana consecutiva de valorização, a sequência mais longa desde 2020.
Na quarta-feira (4), a saca estava cotada a R$ 127,66, valor 1,8% superior ao registrado em 23 de outubro.
A manutenção dos preços elevados poderá afetar tanto o açúcar vendido diretamente ao consumidor quanto os custos de indústrias que utilizam o produto como matéria-prima.
Trigo mais caro pode afetar pães, massas e biscoitos
Outro produto acompanhado pelos analistas é o trigo, utilizado na fabricação de pães, massas, bolos e biscoitos.
Segundo o Cepea, as chuvas registradas durante a colheita reduziram a disponibilidade de trigo de boa qualidade, contribuindo para o aumento das cotações.
A valorização do dólar na última semana de outubro reforçou esse movimento.
No Rio Grande do Sul, o preço médio do trigo subiu 2,2% em outubro.
O estado é o maior produtor nacional do cereal, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A elevação do custo da matéria-prima poderá pressionar os preços praticados por moinhos, padarias e indústrias alimentícias.
Café robusta sobe quase 4% no mercado brasileiro
O mercado de café também apresenta efeitos da valorização cambial.
De acordo com o Cepea, o dólar mais caro tem sustentado os preços internos, mesmo em períodos de queda nas cotações internacionais.
Na quarta-feira (4), a saca de 60 quilos do café robusta foi negociada a R$ 972,99, alta de 3,9% em relação aos R$ 936,73 registrados antes do segundo turno.
Já o café arábica apresentou estabilidade no mesmo intervalo.
A saca foi cotada a R$ 1.600,77, valor próximo dos R$ 1.601,95 observados em 23 de outubro.
O comportamento das duas variedades mostra que os efeitos do câmbio não são necessariamente iguais em todos os segmentos do mercado.
Arroz também sente efeitos da valorização do dólar
No Rio Grande do Sul, principal produtor nacional de arroz, a alta da moeda americana voltou a estimular o interesse pelas exportações.
Segundo o Cepea, a expectativa de maior demanda externa levou parte dos vendedores a adiar negociações no mercado interno.
Ao mesmo tempo, as indústrias mantiveram cautela nas compras, diante da dificuldade de repassar os custos da matéria-prima aos consumidores.
Em outubro, o preço médio do arroz no estado atingiu o maior patamar nominal desde fevereiro de 2025.
Petróleo, diesel e clima também influenciam os preços
Além do dólar, outros fatores podem interferir nas cotações agrícolas nos próximos meses.
O analista Gabriel Viana destaca que o avanço do plantio da soja tem ajudado a limitar aumentos mais expressivos.
As condições climáticas permitiram o andamento da semeadura na maior parte das regiões produtoras, embora chuvas intensas tenham provocado dificuldades em algumas áreas do Sul.
A possibilidade de temperaturas mais elevadas associadas ao fenômeno El Niño também é acompanhada pelo setor, devido aos riscos para o desenvolvimento das lavouras.
Outro fator de preocupação é o preço do óleo diesel.
Com a alta do petróleo após o início da guerra no Irã, o governo federal adotou medidas de subvenção para conter os preços do combustível no Brasil. O benefício foi renovado por mais 30 dias na semana anterior.
Segundo Viana, uma eventual alteração nessa política poderá elevar os custos agrícolas em um período importante para os cuidados com as lavouras e o início de algumas colheitas.
Confira a variação dos preços das commodities agrícolas
| Produto | Cotação em 4/11 | Variação ante 23/10 |
|---|---|---|
| Soja — saca de 60 kg | R$ 152,21 | +3,8% |
| Milho — saca de 60 kg | R$ 66,47 | +3,4% |
| Açúcar — saca de 50 kg | R$ 127,66 | +1,8% |
| Café robusta — saca de 60 kg | R$ 972,99 | +3,9% |
| Café arábica — saca de 60 kg | R$ 1.600,77 | Estável |
Fonte: Cepea. Cotações de mercados de referência distintos, conforme os indicadores de cada produto.
Aumento para o consumidor ainda depende do comportamento do mercado
Apesar das altas registradas nas commodities agrícolas, os especialistas ressaltam que a valorização das matérias-primas não significa reajuste imediato e proporcional dos preços nos supermercados.
O impacto depende da duração da alta do dólar, dos custos de transporte e produção, das condições das safras e da demanda pelos produtos.
A preocupação central é que a permanência do câmbio elevado aumente gradualmente as despesas da indústria alimentícia e do comércio, criando condições para novos repasses ao consumidor.





