Campanha do EVA reforça que câncer de colo do útero pode ser evitado com vacina e Papanicolau

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Ao menos 30 mil brasileiras recebem, anualmente, o diagnóstico de algum câncer ginecológico. O mais comum deles, de colo do útero, pode ser evitado com vacina contra HPV e exame de Papanicolau

Juntos, os cânceres de colo do útero, ovário e corpo do útero (endométrio) – os três tipos ginecológicos mais comuns – somam 29,8 mil novos casos anuais, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Outros dois tipos, câncer de vulva e vagina, também entram nesse grupo, mas para eles não há dados nacionais oficiais de novos casos/ano. Portanto, ao menos 30 mil brasileiras recebem, anualmente, o diagnóstico de algum câncer ginecológico, sendo que os tumores de colo do útero representam a maioria deles (16.710 novos casos previstos para 2021.

Fernando Maluf

O câncer de colo uterino é o terceiro mais comum nas mulheres, atrás apenas de câncer de mama e colorretal. Apesar da alta incidência, vale ressaltar que esta doença não só pode ser diagnosticada precocemente, como também é, principalmente, evitável.  E as medidas primordiais para evitar a doença são o acesso e adesão ao exame de Papanicolau e à vacinação contra o papilomavírus humano (HPV). Tanto o exame quanto a imunização estão disponíveis na rede pública, porém, com gargalos nas cincos regiões do país.

Ao longo do mês de setembro, o Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) realizará atividades online de conscientização direcionadas a diferentes públicos. Dentre elas, a Live “Como ser agente de prevenção do câncer ginecológico”, agendada para o no dia 5, que é voltada exclusivamente aos agentes comunitários (ACS) de saúde e agentes de combate às endemias (ACE), em parceria com a A CASA, um projeto do Instituto de Pesquisa e Apoio ao Desenvolvimento Social (IPADS), Confederação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde e de Combate às Endemias (CONACS) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e durante o mês de setembro será lançada uma  cartilha sobre HPV com orientações sobre  o que é , forma de contaminação , prevenção.

“O câncer de colo do útero é uma doença que pode ser evitada por meio da vacina contra HPV, que está disponível no SUS e do Papanicolau, que também está na rede pública e que tem o potencial de detectar lesões que pré-malignas, ou seja, que ainda não são câncer, e assim ser direcionada para tratamento precoce. Passar esse conhecimento para as agentes de saúde é uma forma de conscientizá-la em relação ao cuidado com sua saúde e de todas as mulheres das comunidades que elas atuam”, ressalta o membro fundador e presidente do Grupo EVA, Fernando Maluf, diretor do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital BP Mirante /SP, membro do Comitê Gestor do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) /SP, fundador do Instituto Vencer o Câncer, autor de artigos científicos e de mais de uma dezena livros publicados no Brasil e no exterior, além de professor Livre Docente pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

A programação especial do EVA para o Setembro em Flor inclui um Workshop de acolhimento de pacientes, no dia 21, além do lançamento dos dois primeiros episódios do EVA PODCAST e da cartilha sobre HPV.

PRECISAMOS EVITAR A ÍNTIMA RELAÇÃO ENTRE HPV E CÂNCER DE COLO DO ÚTERO

A contaminação pelo vírus HPV é fator causal para quase todos os casos de câncer de colo do útero. Para imunização dos HPVs oncogênicos 16 e 18, que são responsáveis por 70% dos tumores malignos no colo uterino, há vacina disponível na rede pública. A vacina quadrivalente, que protege contra os HPVs 16 e 18, também previnem os HPVs 6 e 11, que são responsáveis pela maioria das lesões genitais.

A vacina quadrivalente é distribuída gratuitamente pelo SUS para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 9 a 14 anos. Também é distribuída na rede pública para mulheres e homens imunossuprimidos (que vivem com HIV/aids, estão em tratamento oncológico ou realizaram transplante de órgãos, etc.) até os 45 anos. Para esse grupo, a vacina é oferecida em 3 doses, com intervalo 0, 2 meses e 6 meses.

Em razão da baixa adesão às campanhas de vacinação contra HPV e gargalos no acesso ao exame Papanicolau, o Brasil apresenta alta incidência e mortalidade por câncer de colo do útero. Em alguns estados, principalmente na Região Norte, os tumores de colo uterino superam o câncer de mama. O problema é mais acentuado no Amazonas, que registra 40,18 casos para cada 100 mil mulheres. Na sequência, vem o Amapá, com 33 casos para cada 100 mil. Comparativamente, em São Paulo, são 5,93 casos para cada 100 mil.

A prevalência de câncer de colo do útero em São Paulo é similar ao cenário do Canadá, que registra 5,7 casos para cada 100 mil mulheres. Entre as canadenses, a mortalidade é de 1,7 casos para cada 100 mil. O Canadá apresenta taxa de cobertura vacinal acima de 80%. O mesmo ocorre com o Reino Unido e Austrália, que também registram 1,7 mortes pela doença para cada 100 mil mulheres.

O abismo mundial fica ainda mais evidente quando se compara com os países de menor IDH (índice de desenvolvimento humano). Na Suazilândia, no sul da África, são 75,3 casos e 52,5 mortes para cada 100 mil mulheres. Na América do Sul, o maior impacto da falta de acesso se dá na Bolívia, que registra 38,5 casos e 19,0 mortes para cada 100 mil bolivianas.

Dados do estudo EVITA realizado pelo grupo EVA em parceria com o LACOG demonstrou alguns motivos mais frequentemente relatados para a não realização do Papanicolau: falta de vontade em 46,9%, vergonha ou constrangimento em 19,7%, e falta de conhecimento em 19,7%. Este estudo também demonstrou que a baixa adesão ao papanicolau está associada a disparidades sociais, menor renda, nível educacional e parceiro estável. Dessa maneira, a conscientização é importantíssima e o conjunto de ações: vacina contra HPV, papanicolau e tratamento precoce, são capazes de salvar vidas de mulheres, na sua maioria jovens e economicamente ativas.

PRECISAMOS FALAR TAMBÉM SOBRE OS OUTROS TUMORES GINECOLÓGICOS

Com o objetivo de alertar a população sobre os fatores de risco, sinais e sintomas precoces dos tumores ginecológicos, buscando minimizar tratamentos, reduzir sequelas e salvar vidas, o Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) idealizou para 2022 a campanha Setembro em Flor. (https://eva.org.br/setembro-em-flor/).

Com inspiração no mês que marca o início da primavera, a flor é adotada na campanha com as suas pétalas tendo diferentes cores, cada uma representando um dos cinco tumores ginecológicos (colo uterino, corpo uterino, ovário, vulva e vagina). A flor é também um símbolo de vida, pureza, feminilidade, fertilidade, o que representa bem a mulher.

Os tumores ginecológicos se diferenciam quanto aos fatores de risco, conforme local de origem.  Se por um lado o câncer de colo do útero, como já descrito, tem o HPV como fator causal, o câncer do corpo do útero (ou endométrio) vem apresentando crescimento de incidência nos últimos anos provavelmente por conta da obesidade. O câncer de corpo do útero é responsável por cerca de 6.500 novos casos e pela morte de mais de 1800 mulheres/ano no país. Infelizmente, não existe um método eficaz para rastreamento, hoje tem como principal fator de risco a obesidade, mas os principais sintomas são sangramento uterino anormal e desconforto pélvico, que podem alertar à mulher para necessidade de procurar por atendimento médico e assim, há mais chances de diagnóstico e tratamento precoces.

O câncer de ovário é o segundo tumor ginecológico maligno mais comum e é o que apresenta a menor taxa de sobrevivência entre os cânceres femininos. É chamado de tumor silencioso, por não apresentar sintomas específicos e ausência de métodos eficazes de rastreamento. Alterações genéticas podem estar presentes em 25% das pacientes com câncer de ovário e a história familiar de câncer de mama e ovário devem sempre ser sinais de alerta. Os testes genéticos tornam-se importantes ferramentas não só para definição de tratamento, mas para aconselhamento genético aos familiares.

Os cânceres de vulva e vagina são tumores mais raros e que também possuem associação com infecção por HPV como fator causal. A vacina contra o HPV e o exame ginecológico de rotina são os pilares para prevenção e diagnóstico desses tumores em fases iniciais.

Apesar dos avanços em prevenção e tratamento, a taxa de mortalidade no Brasil não tem diminuído satisfatoriamente devido a diagnósticos com doença avançada e atraso para início do tratamento, conforme estudo recente de membros do grupo EVA.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 – Instituto Nacional do Câncer: Estatísticas 2020. www.inca.gov.br/estimativa/estado-capital/brasil

2 – Instituto Nacional do Câncer: Atlas de mortalidade. www.inca.gov.br/app/mortalidade

3 – Instituto Nacional do Câncer: Perguntas frequentes: www.inca.gov.br/perguntas-frequentes/quem-pode-ser-vacinado-contra-o-hpv

4 – Instituto Nacional do Câncer: Detecção precoce: https://www.inca.gov.br/en/node/1194

5 – A.C. de Melo, A.F.D.C. Calabrich, E. Cronenberger, K.L. Torres, F. Damian, R. Cossetti, C.R.A.S. De Azevedo, A.J. da Fonseca, Y. Nero􏰀n, J.S. Nunes, A. Lopes, F. Thome ́, R. Leal, G. Borges, P.R.S. Nunes Filho, F. Zaffaroni Caorsi, R.D.S. Freitas, G. Werutsky, F.C. MalufQuality of life in newly diagnosed patients with cervical cancer in Brazil: Results of EVITA study (EVA/LACOG 0215) A. Nogueira-Rodrigues,

6 – Eduardo Paulino, MD1,2; Andreia Cristina de Melo, PhD1,2; Agnaldo Lopes Silva-Filho, PhD2,3; Luiza de Freitas Maciel, MD1,2; Luiz Claudio Santos Thuler, PhD1; Paul Goss, PhD4,5; and Angelica Nogueira-Rodrigues, PhD2,3 Panorama of Gynecologic Cancer in Brazil . ascopubs.org/journal/ go on October 27, 2020.

– Ferlay J, Colombet M, Soerjomataram I, Parkin DM, Piñeros M, Znaor A, Bray F. Cancer statistics for the year 2020: An overview. Int J Cancer. 2021 Apr 5. doi: 10.1002/ijc.33588.

Sobre o Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) – O EVA é uma fundação sem fins lucrativos, composta em sua maioria por médicos, que tem como missão o combate ao câncer ginecológico. Seu time, multiprofissional, atua com foco na educação, pesquisa e prevenção, assim como promove apoio e acolhimento às pacientes e familiares.

A idealização e a organização do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos foram iniciadas pela oncologista clínica Angélica Nogueira Rodrigues, no Hospital do Câncer II do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A primeira reunião ocorreu em 12 de março de 2010 e o nome Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos passou a ser utilizado a partir desta data.

A primeira reunião para nacionalização do grupo ocorreu no Congresso da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), em 2013, na cidade de Brasília. O nome EVA foi resultado de uma reunião neste evento e foi sugerido pela oncologista clínica e coordenadora do grupo, Andréa Paiva Gadelha Guimarães. O oncologista clínico Fernando Cotait Maluf é o diretor-presidente do EVA na gestão 2021-2022.

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