
Por Celson Bianchi
Estamos vivenciando um momento único da vida nacional e da vida de Brasília. Desde Tiradentes, a indignação com o comando do País não se mostrava tão pujante e mobilizou tanta gente, quanto ao longo do processo de impeachment que ora tramita no Congresso Nacional.
Alguns poderiam dizer que o impeachment de Collor também mexeu com a nação. Ocorre, que em 1992 o jogo foi ganho por W.O. Collor não tinha militância, respaldo político e muito menos capacidade de articulação com a sociedade. Foi derrotado quase sem tocar na bola. A maior prova disto foi o próprio PT do Senado, quando durante a recente reunião de líderes para tratar do impeachment de agora, reconheceu, sem qualquer constrangimento, que o processo que levou ao afastamento do então presidente Collor foi no sistema express, abalizado por tudo e por todos com toda a pressa que a situação requer. Embora integralmente dentro dos preceitos constitucionais.
Agora a coisa é diferente. O PT que começou como partido hoje mais se aproxima de uma seita. Deixou-se de lado a razão dos fatos graves e incontestáveis da corrupção e do desvio, que balançam o comando do país, para simplesmente quedar-se a adoração construída na base de favores, do patrimonialismo e dos repasses com dinheiro público. Daí o jogo atual do impeachment encontrar tamanha resistência, apenas na lógica da vinculação comandada por partidos, sindicatos e movimentos sociais que se embeveceram com as riquezas nacionais e o aporte fácil do dinheiro público.
Não fosse a ideologia patriótica do cidadão comum, primeiro a acreditar no impeachment, e que por sua mobilização arrastou partidos e personalidades políticas, até então descrentes, nada disto estaria acontecendo. Nos submeteríamos ao caos dos serviços públicos essenciais, ao quadro de mentiras eleitorais e principalmente ao manuseio sem pudor dos números fiscais, que nos levaram a recessão, a falta de perspectivas e as costumeiras mentiras eleitorais, sem qualquer contestação.
Ao povo somaram-se organizações da sociedade civil que não dependem do dinheiro público, tal qual nossa Associação Comercial do DF, e desta mobilização e indignação que foi transportada das redes sociais para as ruas do Brasil, que hoje nos permitimos a oportunidade de um recomeço.
JK que sempre teve na democracia um livro de conduta inseparável, assiste com satisfação inquebrantável sua filha consolidar-se como palco das grandes manifestações nacionais.
Se alguns ainda tinham dúvida da força pulsante das veias de aço e cimento que cortam nossa cidade, esta dúvida se espraiou como nuvem de fumaça, para nos permitir bradar com todas as forças: Brasília tem corpo e alma.
E é esta alma de brasilidade que JK sonhou ver retratado no dia a dia nacional, e que nos fez enxergar para dentro do nosso próprio País, que agora nos autoriza a catalisar a indignação nacional como combustível inesgotável de um processo que caminha a passos largos para voltarmos, dentro da mais perfeita quadra de constitucionalidade, a dizer não às práticas de conduta que ceifaram nossas riquezas, em especial da maior empresa brasileira.
Enganam-se mais ainda aqueles que acreditam ser o impeachment um processo que se encerra em si mesmo. Apesar de todas as tentativas vãs de se construir uma guerra de guerrilha pautada em falsos argumentos disseminados com o único propósito de barrar o processo de impedimento em curso, valendo-se das mais reprováveis teses ao seu alcance, como se fôssemos idiotas, manipuláveis ao mais simples aceno, com destaque para a malfadada tentativa de deslegitimar o Congresso Nacional, por um passado que o condena, mas com um presente, que longe de absolver quem quer que seja individualmente, se dá em perfeita sintonia com os reclamos da esmagadora maioria da população.
Não terão êxito. O impedimento da atual presidente da República é o começo e não o fim, e deve servir de alerta para todos os políticos que se acham acima do bem e do mal. O povo sabe o que quer, e num país abençoado por Deus não se deixará manipular por quem quer que seja, pois estamos convictos de que força de JK e o simbolismo do que representou sua epopeia em favor do Brasil, nos permite, neste mês de aniversário de Brasília, voltar a sonhar com um país que olhe para seus filhos com a compreensão de que há muito a fazer para resgatar nossa dignidade, mas acima de tudo com a certeza de que não foi o povo que nos colocou neste caos e se há conta a ser paga, não é no bolso dos brasileiros que se deve principiar o indispensável resgate econômico e social.
Na Brasília de corpo e alma que vislumbramos, nestes 56 anos da sua inauguração, a base de sustentação de uma verdadeira democracia do povo, para o povo e pelo povo, deve saber distinguir onde apontar os caminhos da salvação nacional, sem permitir que alguns ganhem em prejuízo de todos.
Que o novo governo que se avizinha tenha a exata noção de que, tão importante quanto acertar, é fundamental não errar. De corpo e alma eu acredito nisto, assim como em Brasília e no Brasil.
- Celson Bianchi é jornalista



