
Me parece óbvio que nenhum governante quer tomar medidas como essas, mas óbvio também que decidir é uma obrigação de quem governa, mesmo que a decisão se constitua num remédio amargo, como é a presente situação
Por Raimundo Ribeiro
Como é do conhecimento de todos, infelizmente essa pandemia a cada dia se alastra contaminando mais pessoas.
No ano passado, creio que por desconhecimento, tínhamos um inimigo que não sabíamos como combater e milhares de vidas foram perdidas.
Logo os sistemas de saúde entraram em colapso pois já eram impotentes para o atendimento das doenças então existentes, e com o surgimento do vírus a demanda por atendimento aumentou exponencialmente escancarando às deficiências dos sistemas de saúde.
O resultado trágico todos conhecemos.
Semana passada o DF tinha aproximadamente 75% dos leitos de uti ocupados, margem alta, mas possível de trabalhar.
Entretanto, na sexta-feira o nível de ocupação aumentou assustadoramente para 98%, o que significa dizer que pessoas contaminadas procurariam os hospitais e não teriam atendimento por absoluta falta de condições. O nível de transmissão passou também da margem de 0,89 por uma pessoa para 1,09, isto é uma pessoa passou a transmitir o vírus para mais de uma pessoa. Em sentido figurado, uma tempestade devastadora de longa duração era desenhada com milhares de pessoas contaminadas buscando desesperadamente os hospitais, e estes não teriam nenhuma condição de atende-los.
Creio que visando conter essa escalada desenfreada de contaminação e consequente busca de atendimento que não ocorreria por falta de condições materiais, o governo decidiu reforçar algumas medidas de prevenção como o distanciamento social, restringindo temporariamente atividades produtivas que involuntariamente propiciam a transmissão do vírus.
Me parece óbvio que nenhum governante quer tomar medidas como essas, mas óbvio também que decidir é uma obrigação de quem governa, mesmo que a decisão se constitua num remédio amargo, como é a presente situação.
As medidas restritivas podem ser criticadas mas o momento não permite que sejam críticas vazias numa retórica que objetivem apenas desgastar a imagem dos governos para uma eleição que se avizinha.
Não, o momento crítico que vivemos, com o risco de perdermos centenas, talvez milhares de vidas, não permite essa mesquinhez, “politizando”(com p minúsculo mesmo) o debate. É necessário responsabilidade e coragem para tornar o debate propositivo, pois a vida tem que estar acima de tudo, principalmente acima dos interesses partidários, ideológicos e corporativistas.
Quem tem sugestões, que apresente, porque obviamente nenhum governante deseja “quebrar” o comércio ou desempregar pessoas; todos querem (ou deveriam querer) salvar vidas em risco.
Diante disso, torna-se imperativo que busquemos uma análise lúcida da grave situação que vivemos e não deixemos que a mesquinhez dos oportunistas que só desejam holofotes, mesmo que às custas de vidas perdidas, lance um véu de cegueira sobre nossos olhos.
Raimundo Ribeiro é advogado



