Rádio: ontem, hoje e amanhã. Vínculos que se mantém

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Por Sérgio Pinheiro da Silva 

O rádio é um meio de comunicação via ondas eletromagnéticas em diferentes frequências. Ele nos leva o som e chega até nós por um dos sentidos que antes de nascermos já nos apresenta o mundo externo. A partir do quinto mês de gestação, os sons emitidos do lado de fora da barriga da mãe podem ser ouvidos, sentidos e contribuem no desenvolvimento daquele ser humano que está por vir. 

 O rádio foi criado em 1986 por Guglielmo Marconi, um italiano que, sem apoio do próprio país, buscou financiamento na Inglaterra e lá realizou seu feito. No Brasil, o Padre Roberto Landell de Moura realizou transmissões eletromagnéticas entre os anos 1893 e 1894, mas são poucos registros. Oficialmente, o rádio chegou por aqui em 1922 para as comemorações do primeiro centenário de Independência do Brasil, quando o então presidente Epitácio Pessoa discursou e sua voz foi ouvida através de receptores instalados em praças públicas.  

  Um desses ouvintes foi Edgard Roquette Pinto, escritor, médico e antropólogo que se entusiasmou com o amigo cientista Henrique Morize. Juntos, eles criaram, em 1923 com apoio da Academia Brasileira de Ciências, a primeira emissora do país: A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.  

 O entusiasmo de Roquette Pinto era educacional e, na programação da emissora, ele conseguia transmitir palestras, óperas e conteúdos que buscavam uma educação erudita para a população.  

 Na década de 1930, Getúlio Vargas regulamentou o rádio e aprovou a publicidade. Foram, então, criadas muitas emissoras por todo o território nacional. A programação se popularizou e mais pessoas passaram a ter aparelhos de rádio em casa. Logo vivemos a chamada “Era de Ouro do Rádio no Brasil” (1930-1940), quando as pessoas se reuniam na sala de casa para ouvir radionovelas, os programas musicais com festivais em auditórios lotados e jornais que informavam as principais notícias do dia. 

 Com a chegada da televisão em 1950, a população se encantou com o novo meio que, além de ter som, também tinha imagem. Muitos disseram que o rádio morreria, mas ele se reinventou e ganhou outros ambientes da casa indo para a cozinha, quarto e os carros. Como é um meio multitarefa, permite que seus ouvintes façam muitas coisas e ainda consigam acompanhar a programação. O rádio se tornou o grande companheiro do nosso dia a dia, um importante formador do pensamento coletivo que informa, educa e entretém.  

 Entre os anos 1960 e 1970 o rádio FM ganhou força nos grandes centros urbanos e trazia consigo mais qualidade de som e muita musicalidade e, aos poucos, principalmente a partir dos anos 1990, mais informação. 

 Falando em música, quantas e quantas canções retratam a presença do rádio no dia a dia das pessoas. “Tô aqui cantando, de longe escutando / Alguém está chorando com o rádio ligado” um dos maiores clássicos da música sertaneja. Ou até mesmo quando Tim Maia diz ao rádio: “Leva o meu som contigo / Leva / E me faz a tua festa / Quero ver você feliz”. Sim, o rádio é feliz, é informativo, é triste e se torna humano, pois apesar de ser ondas eletromagnéticas e hoje, cada vez mais, bits, é uma comunicação entre seres humanos que sofrem, riem e vivem buscando vínculos para se sentirem pertencentes à sociedade em que vivem. 

O rádio cria vínculos. Vínculos sonoros, vínculos humanos, vínculos que nos fazem olhar para o lado e ver no outro um pouco de nós. 

 A chegada da Internet provocou mudanças significativas no mundo da comunicação e os aplicativos de música, o MP3 com a possibilidade de carregarmos nossas trilhas sonoras preferidas no bolso, teoricamente, fez com que o rádio perdesse novamente a importância, mas não. O rádio se reinventou e segue se reinventando. Essa talvez seja mais uma característica do meio, a facilidade de reinvenção. 

  Se os aplicativos de música e o MP3 nos proporcionam uma seleção criteriosa do que vamos ouvir, o rádio pode nos surpreender com uma canção certa no momento certo e que mexe conosco. Pode nos apresentar uma nova música não só com a obra de arte, mas com explicações, histórias e causos que cercam a canção. Se podemos ler as informações escritas em jornais, revistas e portais na internet, a informação no rádio carrega emoção, traz literalmente o fato acontecendo instantaneamente num retrato sonoro do fato. A televisão também retrata, e com imagens, porém o rádio é ainda mais móvel, mais simples e rápido que seu primo irmão com imagens.  

 E o podcast tem resgatado formatos de programas que o próprio rádio abandonou por dificuldades ou custo de produção. Será que o podcast vai tirar espaço do rádio? Não, ele é mais um filho que tem suas características próprias e tem seu público. 

Aqui não é uma briga de meios, mas um entendimento da comunicação. Cada veículo, cada meio tem sua especificidade e provoca em seu público uma sensação. Há espaço e público para todos os veículos, afinal, todos são feitos por seres humanos para seres humanos. 

 Sérgio Pinheiro da Silva é doutor e mestre em Comunicação, formado em Rádio e TV pela Universidade São Judas. Professor da USJT nos cursos de Design e Comunicação e Artes e podcaster.

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