
Ex-secretário garante que enfrentou com sucesso todos os problemas que a atual gestão enfrenta com muita dificuldade
Por Fred Lima
Desde que deixou a Secretaria de Saúde, em março do ano passado, o médico Rafael de Aguiar Barbosa, 55, pouco falou sobre sua gestão à frente de uma das secretarias mais importantes do Governo do Distrito Federal. Rafael Barbosa foi um dos secretários que mais tempo permaneceu na SES, onde promoveu uma gestão que divide opiniões: enquanto alguns dizem que ele conseguiu fazer muita coisa em pouco tempo, outros alegam que suas ações na secretaria foram frutos de várias irregularidades que suscitaram a abertura de processos judiciais.
Em entrevista exclusiva ao blog do Fred Lima, o ex-secretário defende a sua administração e critica o fim de programas como as Carretas da Mulher e da Visão. Ademais, Rafael afirma que assumiu a Secretaria de Saúde em um contexto pior do que o atual. Tendo como chefes o ex-governador Agnelo Queiroz (PT), e o ex-ministro da Saúde, José Serra (PSDB), Barbosa transita bem em todos os partidos e faz questão de dizer que o problema da Saúde após sua saída não foi de gestão, mas financeiro.
O PSB hoje critica a gestão de Saúde do governo Agnelo, mas apoiou a administração passada até o fim de 2012. Como era o relacionamento com o partido do governador Rollemberg?
O PSB fez parte da minha gestão. Paulo Feitosa, que conduziu todo o programa de governo do governador Rodrigo Rollemberg, foi diretor do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). José Carlos Valência, do partido do atual governador, foi subsecretário de Vigilância a Saúde. Ou seja, o PSB fazia parte do governo e o grupo do partido do setor de Saúde estava comigo desde a transição de 2010. Nós construímos um projeto para a Saúde junto com o partido do governador Rollemberg. Por este motivo, eu tinha uma expectativa de que o atual governo seguisse uma linha sem modificar as conquistas passadas, apesar da proposta diferente da nova gestão.
Durante a transição do ano passado, quem o senhor imaginava que poderia ser o novo secretário?
Ivan Castelli foi uma pessoa que trabalhou muito tempo comigo na secretaria. Ele foi responsável por muitas ações estratégicas da SES. O Paulo Feitosa e o José Carlos Valença também. Nesse conjunto, incluindo o nome do Gutemberg Fialho, que foi candidato a deputado distrital, eu imaginava que o novo secretário poderia sair desse grupo. Infelizmente teve o problema do Castelli não aceitar. Então surgiu o nome do Dr. João Batista, que é um acadêmico. Temos uma relação muito boa, mas achava que ele não tinha um conhecimento abrangente do setor de Saúde, apesar de ser um profissional bastante respeitado.
A escolha por Gondim causou certa aversão entre a classe médica
O nome de Fábio Gondim foi uma boa escolha?
É uma decisão pessoal do governador e deve ser respeitada. Tive a experiência de trabalhar com o ministro da Saúde, José Serra, que não era médico, e hoje é considerado um dos melhores ministros que o país já teve. Não tive nenhum problema pelo fato do Serra não ser médico. Só acho que quando fazemos uma opção por um gestor que não conhece a área de Saúde, é necessária então ter uma equipe preparada em volta dele. Os desafios que o Gondim está enfrentando são semelhantes aos que enfrentei. Não tenho dúvida sobre sua capacidade de gestão. Agora para a classe médica do DF a escolha por ele causou certa aversão.
A classe médica é sempre acusada de querer controlar a Rede. Existe muito corporativismo no setor?
Existe. Tivemos outros secretários que não eram médicos e a Saúde andou, independentemente disso. Agora dentro da classe médica existem pessoas preparadas para assumir a SES. O governador Rollemberg inclusive escolheu no início o Ivan Castelli para o posto. É até normal cada categoria querer predominar em sua área de atuação.
O governo Rollemberg encontrou a saúde em melhores condições do que recebi há cinco anos durante a transição, porém com uma diferença fundamental: eu tinha o diagnóstico e conhecia o setor.
O governo Agnelo tinha um planejamento para a Saúde desde a transição?
Tinha feito um planejamento da situação que encontrei na transição, que não era boa. O que aconteceu na política do DF em 2010 é de conhecimento notório de toda a população. O cenário da Saúde era muito grave. Não é à toa que o então governador Rogério Rosso criou outra secretaria dentro da SES, que era a de Logística, visando abastecer a Rede de Saúde Pública, devido ao caos instalado. Em um ano tivemos quatro governadores, ou seja, a secretaria teve alterações quatro vezes em 2010. Imagina o transtorno administrativo que tudo isso causou? A reestruturação da SES foi dificílima. Quando assumi não tinha uma central de compras, por exemplo. As pessoas não têm noção do trabalho que dá para criar uma central única de compras no governo. Por isso tenho a plena convicção que o governo Rollemberg encontrou a saúde em melhores condições do que recebi há cinco anos durante a transição, porém com uma diferença fundamental: eu tinha o diagnóstico e conhecia o setor.
Como era a situação?
Levei seis meses para comprar e abastecer a Rede. E hoje está funcionando. Muita coisa foi feita naquele período durante o processo de reestruturação, e quem assumiu agora pegou tudo pronto. Vou dar um exemplo: assumi a secretaria com apenas 30% de prontuário eletrônico nos hospitais. Ninguém lembra disso. Quando saí deixei com mais de 90%. O único hospital que não consegui implantar o prontuário eletrônico foi o Hospital Regional de Planaltina (HRP) por causa de instalações elétricas. Entretanto, peguei com apenas 30% de um contrato que há anos vinha se arrastando na SES. Tomei posições que talvez me prejudicaram bastante politicamente, como implantar algo que nenhum outro secretário conseguiu: o ponto eletrônico.
Alguns atribuem que os problemas mais crônicos da secretaria começaram a aparecer durante a sua gestão. É uma avaliação justa?
Discordo totalmente. Pelo contrário, enfrentei com sucesso todos os problemas que a atual gestão enfrenta com muita dificuldade. Quando assumi, os pacientes com câncer do DF estavam indo fazer tratamento em Anápolis/GO e Uberlândia/MG, porque as filas daqui estavam superlotadas. Em pouco tempo reduzimos as fileiras, abrindo um serviço novo de oncologia no Hospital Regional de Taguatinga (HRT). O tratamento só tinha no Hospital de Base, onde criamos o terceiro turno de radioterapia para pacientes; ampliamos o atendimento no Hospital Universitário de Brasília (HUB), criando lá também o terceiro turno; firmamos convênio com duas instituições privadas (Santa Lúcia e Anchieta) para fazer radioterapia. Deixei esse setor sem nenhuma fila, ao contrário do que vemos hoje. Em janeiro de 2011 tinham onze tomógrafos na Rede, sendo que oito estavam quebrados. Todos foram consertados. Acabamos com as filas em tomografia. Atualmente a situação está da mesma forma que encontrei há quatro anos. As filas para fazer ressonância magnética eram mais de 15 mil pessoas. Abri um edital e contratei o serviço de ressonância na rede privada. Outro problema era os elevadores dos hospitais. O Balanço Geral mostrava todas as semanas os doentes subindo as escadas nos braços de pessoas no HRT. Isso não existe mais, pois todos os hospitais tiveram seus elevadores recuperados. O exemplo maior são as UTIs. Assumi com 205 leitos de UTIs e deixei a pasta com 437. Está faltando leitos porque tinham que ter dado continuidade ao projeto de melhoria. Em 2011 haviam quatro UPAs, que estavam abandonadas. Recuperamos as quatro, localizadas em Samambaia, Recanto das Emas, Núcleo Bandeirante e São Sebastião, onde cada uma tem capacidade de atender 500 pacientes diariamente. Construímos em três anos nove Clínicas da Família, que assim como as UPAs são a essência do atendimento primário.
Me incomoda ouvir críticas de quem não conhece a área de Saúde
As críticas à sua gestão na SES o incomodam?
O que me incomoda é ouvir críticas de pessoas que não têm o mínimo de conhecimento da área. Cansei de ouvir gente repetidamente dizer que o problema da Saúde era a falta de gestão. Acho que é mesmo falta de gestão, porque quando assumi, a primeira coisa que fiz para aprimorar a gestão da secretaria – e não sei porque o governador Rollemberg não fez o mesmo – foi procurar, durante a transição, o grupo Movimento Brasil Competitivo (MBC), do empresário Jorge Gerdau, que o atual governador disse que ia trazer para o DF, mas até agora nada. Eles me indicaram uma empresa francesa, a Accenture, que faz um excelente trabalho no mundo inteiro de gestão e planejamento estratégico. Quando sentei na cadeira de secretário de Saúde, eu sabia o que queria. Planejei a secretaria para ações a curto, médio e longo prazo.
Como avaliou o fim de programas como o Carretas da Mulher e o da Visão?
A Carreta da Mulher não foi um projeto que surgiu por acaso na minha mente. Vi a Carreta no Amazonas, com outra proposta, e fizemos um modelo aqui que hoje é copiado no país inteiro. Tem em São Paulo, no Maranhão, no Tocantins, no Goiás. É o maior programa de prevenção do câncer da mulher. Podiam ter mudado o nome, mas acabar foi um retrocesso. As pesquisas de avaliação da Saúde davam mais de 90% de aprovação para a Carreta da Mulher. A lógica da Carreta era garantir o acesso. Ela ia em zona rural, em áreas pobres da cidade, onde muitas mulheres não têm dinheiro nem para pegar o ônibus e fazer o exame. Não existiam filas de mamografia nos hospitais por isso. Hoje tem mais de cinco mil mulheres nas filas esperando para fazer uma mamografia. É inadmissível. O programa pode até apresentar alguma falha, como qualquer outro, mas os acertos foram muito maiores. A Carreta da Mulher se tornou um programa de política pública, não de governo. Quanto à Carreta da Visão, também não é invenção minha. É uma política pública implantada em todo o Brasil. Fizemos mais de quarenta mil cirurgias. Como médico, nunca imaginei que tivesse uma demanda tão alta assim no DF. Mas quando oferecemos um serviço de qualidade, a população usufrui mesmo. Vieram pessoas do Piauí, do Maranhão e de vários estados. Uma cirurgia de catarata custa em média R$ 12 mil. E fazer de graça é um benefício imensurável para a população. Alguns podem até ser contra, mas então que ofereçam algo semelhante ou melhor para que o povo seja atendido.
O problema enfrentado pela Saúde foi por causa da área econômica do governo, não da gestão do secretário
Quando e como a Saúde saiu dos trilhos?
Fui exonerado da secretaria no começo de abril de 2014, em um cenário muito favorável. Não seria um irresponsável em deixar a SES para ser candidato a deputado federal em uma conjuntura desastrosa, igual à que assumi a pasta. A Rede estava abastecida. Existiam problemas pontuais que nunca deixaram de existir, mas um secretário que convocou 14 mil servidores e nomeou cerca de 12 mil, trabalhou muito com relação a recomposição de recursos humanos. Agora o que aconteceu com a Saúde, ocorreu também com outras áreas do governo, que foi um problema financeiro, que não cabe ao secretário de Saúde resolvê-lo. O que coube a mim foi elaborar anualmente o orçamento de gastos para o setor. No orçamento de 2014 pedimos cerca de R$ 8 bilhões. O governo repassou apenas R$ 6 bi. Ficamos então com menos de R$ 2 bi. Na época, alertei a área econômica do governo. Disse: “Podemos ter problemas no abastecimento da Rede, com os prestadores de serviços, em especial: alimentação, vigilância e limpeza”. Tudo isso foi documentado. Nem sempre o orçamento que queremos é o que vamos ter. O que aconteceu no ano passado no GDF atingiu em cheio as principais áreas. Identifico que o problema enfrentado pela Saúde foi por causa da área econômica do governo, não da gestão do secretário.
Como foi o relacionamento da mídia com a secretaria?
Enfrentamos uma mídia local e nacional muito fervorosa. O PT governava o Acre, o DF e a Bahia. Contudo, qualquer problema relacionado à Saúde, só saia de forma negativa do DF. Quando tinha uma crise relacionada ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, então candidato ao Governo de São Paulo, as críticas na área vinham para cima do governo Agnelo.
Qual a frustração que carrega durante sua passagem pela SES?
Não ter conseguido fazer as licitações de limpeza, segurança e alimentação. Foi a única coisa que me frustrou. Primeiro porque, quando entrei, esses processos faziam parte de uma licitação da Secretaria de Planejamento, onde era a antiga central de compras. Então briguei dentro do governo com todas as áreas para que fosse licitada pela Saúde. Obtive autorização do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) e segui todo o procedimento. Quando chegou em 2013, não tinha orçamento.
Ser candidato a deputado federal não foi uma boa experiência
Considera um erro ter saído da secretaria para ser candidato a deputado federal?
Eu tinha uma decisão pessoal de sair do governo. Estava muito cansado devido aos obstáculos que tive que enfrentar. Hoje eu não faria mais isso. Sairia do governo, mas não seria candidato a nada. Não foi uma boa experiência.
Quais são os seus projetos atuais?
Estou dando uma descansada, mas continuo trabalhando na área de transplante no Ministério da Saúde. Ando empolgado novamente com a medicina. Por enquanto meus projetos dizem respeito à minha profissão e à minha família. O distanciamento familiar é um sacrifício muito grande que uma pessoa pública paga. No período de governo tive sérios problemas familiares. Estou tentando recompor esse tempo junto aos meus filhos.
Qual conselho daria para o atual governo sair da crise na Saúde?
O conselho é um só: definir prioridades. A Saúde é uma prioridade. Por ser um médico, o governador Agnelo colocou a SES como prioridade. Metade das contratações do governo foram para a Saúde. Isso mostra que o setor era prioridade. Os números do IBGE não mentem: quem mais investiu em per capita em Saúde no Brasil foi o Agnelo. Visitamos todos os hospitais, onde tomamos conhecimento do diagnóstico e depois definíamos as ações. Um exemplo claro é o pronto-socorro de Planaltina, que foi fechado. Apesar do transtorno, em seis meses entregamos um pronto-socorro novo. Era uma gestão de atitude.






