Por Ederson Marques (*)
O tempo na política é algo imensurável. Se hoje o político A é inimigo mortal de B, amanhã os dois podem se juntar, formar uma chapa majoritária e vencer uma eleição. Quem não se lembra dos azuis (PMDB de Roriz) contra os vermelhos (PT de Geraldo Magela) nas eleições de 2002 no Distrito Federal? E quem não se lembra dos mesmos PMDB e PT vencendo as eleições de 2010 com a dobradinha Agnelo Queiroz e Tadeu Filippelli? Pois é. Nada mais oportunista que a política brasileira.
O cenário de 2010 no DF foi apenas o reflexo da chapa vencedora para a Presidência da República no mesmo ano, com Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB). Hoje, o cenário de crise nacional instaurada no Palácio do Planalto é que parece reflexo da crise instaurada no Palácio do Buriti no então governo de José Roberto Arruda (ex-DEM e atual PR) com a Operação Caixa de Pandora. O Brasil, assim como Brasília, está feito barata tonta, sem saber para onde ir ou aonde quer chegar.
Se o tempo é algo imensurável na política, a prática e seus reflexos são totalmente previsíveis. Depois do governo fracassado de Arruda, eleitores brasilienses elegeram outros dois governadores: Agnelo Queiroz, que sequer chegou ao segundo turno das eleições de 2014; e Rodrigo Rollemberg (PSB). O pessebista, diga-se de passagem, está há três anos com dificuldades por conta das mazelas de seus antecessores e também mazelas próprias. Quem paga a conta é o cidadão brasiliense, que hoje convive com uma crise hídrica sem data para acabar. Isso para citar apenas algo bem democrático, que atinge toda população.
O que se vislumbra para o Brasil nas próximas eleições é o mesmo que ocorreu em Brasília nas duas últimas eleições. Para quem não lembra, o PT já dava como certa a derrota para Arruda nas eleições de 2010, tanto que Geraldo Magela abriu mão de disputar prévias contra Agnelo Queiroz para concorrer ao cargo de governador. Só depois da videoteca de Durval Barbosa ser aberta que Magela tentou retomar as prévias e aí, amigo, já era tarde demais. Sem concorrentes, porque sequer podemos chamar dona Weslian Roriz de uma pessoa política, Agnelo levou por ‘W.O’ a cadeira do Palácio do Buriti.
Sem apresentar resultados satisfatórios para a população, mesmo tendo recebido aportes do governo federal como nunca antes na história de Brasília, Agnelo não conseguiu ir ao segundo turno das eleições de 2014. A Justiça Eleitoral, sabiamente, tirou Arruda da disputa por complicações na Caixa de Pandora, sobrando para Jofran Frejat disputar o cargo aos 46 minutos do segundo tempo. Até a inversão da chapa, Rollemberg não aparecia nem nas pesquisas de segundo turno. Ao fim das eleições, outro ‘W.O’ e outro governador com índices de desaprovação altos.
A Presidência da República hoje é ocupada por um vice-presidente que jogou todas as fichas para derrubar Dilma Rousseff e ocupar seu lugar. Pesquisas indicam que ele conta com 87% de desaprovação do brasileiro. Esse índice, diga-se de passagem, foi apurado antes dos atuais escândalos de gravação do dono da JBS e que culminaram em nove pedidos de impeachment na Câmara dos Deputados.
O ex-presidente Lula também sofre alta rejeição e continua devendo muitas explicações à Justiça e ao eleitorado. A verdade é que hoje não há candidatos para a Presidência da República em 2018. Fala-se em Bolsonaro ou Ciro Gomes. Um é extrema direita, que quer matar todo mundo que não pensa como ele. E outro, apesar de posar de socialista, é um grande coronel no Ceará. Tirando esses dois nomes, o resto é mais do mesmo. Assim como Brasília convive com gestões duvidosas há quase 8 anos, o Brasil tente a conviver com o mesmo mal até que surja um novo líder político que esconda bem suas mazelas. Digo isso porque enquanto o sistema político não mudar, com uma ampla reforma política, as práticas serão as mesmas, mudando apenas os agentes.
(*) Ederson Marques é jornalista e cientista político.



