Grass apostou no caos e levou a crise dos rodoviários para a campanha

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Acordo firmado horas antes da paralisação garante ônibus nas ruas, atende reivindicações dos rodoviários e esvazia uma disputa política que já havia entrado na campanha pelo GDF

Por Ricardo Callado

A greve dos rodoviários do Distrito Federal não aconteceu. Para milhares de brasilienses que acordaram nesta segunda-feira (28) dependendo de ônibus para trabalhar, estudar, procurar atendimento médico ou cumprir seus compromissos, esse é o fato que realmente importa.

Depois de dias de tensão e de uma disputa que rapidamente deixou o campo sindical para entrar na campanha eleitoral, trabalhadores e empresas chegaram a um acordo na noite de domingo. A negociação teve participação do Governo Celina, da Secretaria de Transporte e Mobilidade, da Procuradoria-Geral do Distrito Federal e do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região.

O entendimento prevê reajuste salarial de 8% e aumento de 10% no tíquete-alimentação e na cesta. Os rodoviários foram orientados pelo sindicato a comparecer normalmente às garagens e o transporte coletivo funciona nesta segunda-feira sem a paralisação que estava prevista para começar à meia-noite.

O acordo também produz consequência política às vésperas da eleição para o Governo do Distrito Federal.

A greve havia entrado definitivamente na campanha.

Leandro Grass (PT), candidato ao Palácio do Buriti e adversário da governadora Celina Leão (PP), aproximou sua campanha das reivindicações da categoria.

Na terça-feira (22), Grass participou de caminhada com rodoviários e apoiadores no Terminal da Asa Sul. Durante a agenda, criticou a postura de Celina nas negociações e afirmou que existiam recursos para atender às reivindicações dos trabalhadores. Também prometeu manter os cobradores no sistema caso fosse eleito.

Era legítimo que um candidato discutisse transporte público e condições de trabalho durante uma campanha eleitoral.

O que não é legítimo é o candidato apostar no caos e prejudicar a população com objetivo eleitoral.

Também era previsível que uma paralisação de grandes proporções, ocorrendo exatamente na última semana antes da eleição, produzisse consequências políticas.

Uma greve de ônibus no Distrito Federal não atinge apenas o governo.

Atinge diretamente quem depende do sistema.

Trabalhadores ficam sem chegar ao emprego. Estudantes enfrentam dificuldades para chegar às escolas e universidades. Pacientes têm problemas para comparecer a consultas. A rotina de uma cidade inteira pode ser afetada.

As próprias concessionárias advertiram que milhares de trabalhadores, estudantes, pacientes e idosos seriam prejudicados pela paralisação.

Era nesse ambiente que a eleição entraria em sua última semana.

Não entrou.

GDF acusou movimento de ter componente eleitoral

Celina adotou uma posição dura diante da ameaça de paralisação.

O Governo do Distrito Federal chegou a classificar a greve como um movimento “político-eleitoreiro”. Em comunicado divulgado antes do acordo, o Executivo reconheceu o direito dos trabalhadores de reivindicar melhores salários e condições de trabalho, mas relacionou a conjuntura da paralisação ao período eleitoral e mencionou que o sindicato é filiado à CUT e que seu presidente apoiaria um adversário da governadora.

Os rodoviários discutiam reajuste salarial e renovação do acordo coletivo, vencido em 30 de julho. As negociações já vinham ocorrendo havia meses.

No sábado (26), uma proposta de reajuste salarial de 6% apresentada pelas empresas havia sido rejeitada. O impasse continuou até a noite seguinte, quando se chegou aos 8% de reajuste salarial e 10% nos benefícios alimentares.

Há, portanto, uma pauta trabalhista objetiva que não pode ser ignorada simplesmente.

Ao mesmo tempo, depois que candidatos e governo passaram a utilizar publicamente o episódio para confrontar adversários, seria artificial negar que a questão também ganhou dimensão eleitoral.

Celina buscou o acordo e a greve foi suspensa

A resposta institucional ao impasse funcionou.

O GDF havia recorrido à Justiça do Trabalho. Antes mesmo do acordo, o TRT-10 determinara a manutenção de 80% da operação nos horários de pico, 50% nos demais períodos e 100% durante os dois turnos das eleições. A multa prevista para descumprimento chegava a R$ 100 mil por hora.

Depois veio a negociação.

Secretaria de Mobilidade, Procuradoria-Geral do DF, representantes dos trabalhadores e concessionárias participaram das tratativas que resultaram no entendimento. Celina comemorou publicamente o desfecho e classificou a suspensão da greve como uma boa notícia para a população.

Politicamente, o acordo também mudou a pauta da última semana de campanha.

Grass vinha usando a situação dos rodoviários para questionar a condução do governo Celina. Sem paralisação, desaparece o cenário concreto de ônibus parados, terminais afetados e passageiros enfrentando dificuldades de deslocamento que inevitavelmente colocaria o governo sob pressão.

Grass desejava lucrar com o caos.

Mas crise que tinha potencial para ocupar o centro da campanha eleitoral foi desarmada antes de atingir a população.

O passageiro não pode virar instrumento eleitoral

Existe uma questão maior que a disputa entre Celina Leão e Leandro Grass.

O usuário do transporte coletivo não pertence ao governo, ao sindicato, ao PT, ao PP nem a qualquer candidato.

É cidadão.

A disputa eleitoral termina. Os partidos continuarão defendendo seus projetos. Governistas e oposicionistas continuarão se enfrentando.

O trabalhador que depende do ônibus, entretanto, precisa chegar ao emprego na segunda-feira.

Por isso, qualquer tentativa de transformar serviços essenciais em instrumento de pressão eleitoral merece escrutínio público, independentemente de quem esteja no governo ou na oposição.

Da mesma forma, reivindicações trabalhistas legítimas não devem ser automaticamente desqualificadas como manobra partidária apenas porque surgem durante uma campanha.

O critério precisa ser outro: preservar direitos sem transformar a população em refém de disputas políticas.

Foi o acordo que evitou esse conflito.

Os rodoviários conquistaram reajuste salarial. Os benefícios alimentares foram elevados. As empresas aceitaram o entendimento. O governo participou da negociação. E os ônibus continuaram circulando.

No fim, quem ganhou com a suspensão da greve foi o cidadão do Distrito Federal.

A campanha eleitoral pode continuar nos palanques.

O brasiliense não precisa ficar no ponto de ônibus esperando por ela.

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