Ao chamar a governadora de “cínica e mentirosa”, Lula levou uma discussão institucional sobre o BRB para o terreno das ofensas pessoais e da disputa eleitoral
POR RICARDO CALLADO
A política permite divergências duras. Permite cobranças, denúncias, fiscalização e confronto de ideias. O que não deveria admitir como normal é substituir argumentos por ofensas pessoais — especialmente quando o ataque parte do presidente da República contra uma governadora de unidade da Federação.
Foi esse limite que Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassou ao se referir à governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), como alguém que agiria de forma “cínica e mentirosa” ao tratar da crise do Banco de Brasília (BRB). A declaração foi feita em 16 de setembro, durante um ato eleitoral em Ceilândia, no qual Lula apoiava adversários políticos da governadora.
Pode-se discordar de Celina. Pode-se cobrar explicações do Governo do Distrito Federal sobre tudo o que aconteceu no BRB. Pode-se investigar responsabilidades administrativas e políticas relacionadas às operações com o Banco Master. Aliás, isso precisa ser feito.
Mas nada disso exige agressão pessoal.
Celina reagiu afirmando que sofreu ataques por ser mulher e levantou uma pergunta pertinente ao debate público: Lula utilizaria os mesmos termos para se dirigir a um governador homem? A caracterização da fala presidencial como violência política de gênero é uma interpretação defendida pela própria governadora e por seus apoiadores; não é possível tratá-la, sem decisão das autoridades competentes, como fato jurídico estabelecido.
Ainda assim, existe um fato incontornável: o presidente escolheu as expressões “cínica e mentirosa” para atacar uma governadora durante um comício eleitoral.
Isso empobrece a política.
O BRB não pertence a um partido
Há outro problema nessa disputa: o BRB corre o risco de deixar de ser tratado como uma instituição pública importante para Brasília e passar a funcionar apenas como munição eleitoral.
O banco enfrenta uma crise grave relacionada às operações realizadas com o Banco Master. O GDF busca uma solução financeira que inclui um empréstimo de R$ 6,6 bilhões, enquanto permanecem discussões envolvendo União, Fundo Garantidor de Créditos, Banco Central, instituições financeiras e o próprio Supremo Tribunal Federal.
Responsabilidades pelo que ocorreu precisam ser apuradas. Quem cometeu irregularidades deve responder por elas. Quem tomou decisões administrativas equivocadas também precisa ser identificado.
Mas uma coisa é investigar o passado. Outra, bastante diferente, é transformar a sobrevivência de uma instituição financeira pública em instrumento da campanha eleitoral.
Celina sustenta que o Distrito Federal não está pedindo uma doação do governo federal. Segundo a governadora, o objetivo é conseguir garantias para viabilizar uma operação de crédito destinada à recuperação do banco. O GDF também levou ao STF a alegação de que a resistência do governo federal teria motivação política. A União, por sua vez, apresentou objeções à operação, inclusive relacionadas à capacidade de pagamento do Distrito Federal.
Essas diferenças precisam ser discutidas tecnicamente.
É justamente aí que o debate deveria permanecer.
Defender o BRB não significa esconder seus problemas
Defender o Banco de Brasília não significa fechar os olhos para erros, prejuízos ou possíveis irregularidades.
É exatamente o contrário.
Quem considera o BRB patrimônio importante do Distrito Federal deve exigir transparência, responsabilização e medidas capazes de recuperar a instituição. Não existe contradição entre investigar o que aconteceu e trabalhar para preservar o banco.
O BRB tem uma função que ultrapassa balanços e operações financeiras. É agente financeiro do Governo do Distrito Federal e participa diretamente da operacionalização de políticas públicas. Segundo dados divulgados pelo próprio banco, em janeiro de 2026 já haviam sido creditados mais de R$ 3 bilhões em benefícios sociais nos sete anos anteriores, alcançando mais de 437 mil famílias. Somente em 2025, foram 23 programas sociais, R$ 722 milhões em benefícios e mais de 250 mil famílias atendidas.
São números da própria instituição e, portanto, devem ser compreendidos como dados institucionais. Mas demonstram a dimensão social que o BRB adquiriu no Distrito Federal.
Programas voltados à segurança alimentar, renda e atendimento de famílias vulneráveis utilizam a estrutura do banco. O próprio BRB informa que atua mediante contratos com secretarias e órgãos do GDF para operacionalizar esses benefícios.
Portanto, quando se discute o futuro do BRB, não se discute apenas uma instituição financeira. Há empregos, clientes, correntistas, empresas, políticas públicas e milhares de beneficiários envolvidos.
Celina está certa ao buscar uma saída institucional
Nesse ponto, a governadora faz o que se espera de quem ocupa o comando do Distrito Federal: buscar alternativas para preservar uma instituição estratégica de Brasília.
Isso não elimina a obrigação de esclarecer tudo o que ocorreu em governos passados no banco. Tampouco impede investigações. Recuperação financeira e apuração de responsabilidades não são objetivos incompatíveis.
O erro está em transformar uma discussão dessa magnitude numa guerra eleitoral.
Lula tem todo o direito de apoiar o candidato de seu partido ao Governo do Distrito Federal. Tem o direito de criticar Celina e sua administração. Como político e candidato, pode confrontar projetos e apresentar ao eleitor as razões pelas quais considera seu grupo mais preparado para governar Brasília.
O que não contribui para a democracia é trocar esse debate por ataques pessoais.
Chamar uma governadora adversária de “cínica e mentirosa” pode produzir aplausos num palanque. Não produz uma solução para o BRB.
E existe uma responsabilidade adicional quando essas palavras partem do presidente da República. Lula não deixa de ser chefe de Estado quando sobe em um palanque eleitoral. Depois do comício, continuará sendo presidente também dos brasilienses que votam em Celina, dos que votam em seus adversários e dos que não votarão em nenhum deles.
Mulheres na política não precisam aceitar a agressão como regra
O episódio também deveria provocar uma reflexão que ultrapassa Celina Leão.
Mulheres que ocupam cargos públicos não podem ser colocadas numa espécie de território político em que qualquer agressão seja automaticamente justificada pela existência de uma disputa eleitoral.
Ao mesmo tempo, é preciso cuidado para que a expressão “violência política contra a mulher” não seja usada de maneira automática. A legislação brasileira estabelece requisitos específicos para sua caracterização. A existência de divergência ou crítica política, mesmo dura, não basta por si só.
Por isso, o enquadramento jurídico das declarações de Lula cabe às instituições competentes, caso sejam formalmente provocadas.
No campo político, entretanto, a avaliação pode ser mais simples: o presidente poderia ter contestado Celina com fatos, números e argumentos. Preferiu acrescentar ofensas pessoais.
Não precisava.
Brasília precisa de solução, não de palanque
O BRB precisa ser investigado, saneado e recuperado dentro das regras do sistema financeiro. O Distrito Federal precisa conhecer a dimensão real das perdas. Os responsáveis por eventuais irregularidades precisam responder por seus atos.
E Celina Leão, como governadora, deve continuar sendo cobrada por todas as decisões tomadas durante sua administração.
Cobrança, porém, não é sinônimo de agressão.
A defesa de Celina também não pode significar blindagem política. Da mesma maneira, a oposição ao governo local não deveria significar trabalhar pelo fracasso de uma instituição que pertence ao Distrito Federal.
O BRB existia antes da atual disputa eleitoral e precisa continuar existindo depois dela.
É possível combater Celina nas urnas sem atacar pessoalmente Celina. É possível investigar o BRB sem desejar sua destruição. É possível responsabilizar quem errou e, simultaneamente, trabalhar para preservar uma instituição importante para Brasília.
Essa deveria ser a fronteira entre disputa eleitoral e responsabilidade pública.
Quando um banco que operacionaliza bilhões de reais em políticas sociais passa a ser tratado apenas como arma contra um adversário, quem corre o risco de pagar a conta não é um partido.
É Brasília.




