Aumento de cerca de R$ 91 no benefício chega em meio à discussão sobre inflação de alimentos, o preço da picanha e o uso de programas sociais perto da votação, sem resolver sozinho a perda de renda das famílias mais pobres
O anúncio de um reajuste de 15% no Bolsa Família às vésperas do primeiro turno reacendeu a disputa política em torno do principal programa de transferência de renda do país. O governo apresenta a medida como correção de um benefício que, segundo a crítica da oposição, ficou quatro anos sem reajuste real compatível com o custo de vida.
A oposição responde que o timing é eleitoral e que o valor adicional — cerca de R$ 91 — não devolve o poder de compra prometido em campanhas anteriores.
O contraste com o preço da carne tornou-se o símbolo da polêmica. Em 2022, a imagem da picanha com farinha e cerveja foi usada como atalho para falar de prosperidade. Hoje, o quilo da picanha no varejo costuma girar entre R$ 80 e R$ 110 em cortes comuns, com ofertas a partir de R$ 55 a R$ 70 e peças premium acima de R$ 110. Em muitos supermercados, R$ 91 não compra um quilo do corte que virou estelionato eleitoral. O ponto não é gastronômico: é de inflação de alimentos e de orçamento doméstico.
Há dois argumentos em choque, e ambos precisam ser separados. O primeiro é de política pública. Transferência de renda perde eficácia quando o reajuste chega tarde e abaixo da inflação sentida no supermercado. Quem depende do benefício enfrenta fila, aluguel, gás, passagem e comida no mesmo mês. Um aumento pontual alivia, mas não reconstrói poder de compra se preços de itens básicos seguem altos.
O segundo é de calendário. Medidas que mexem no bolso do eleitor mais pobre perto da urna sempre geram suspeita de uso eleitoral, independentemente do partido no Planalto. Isso não anula o direito de corrigir um benefício defasado. E transforma automaticamente o anúncio em prova de desespero ou em resultado de pesquisa.
A “nova picanha” do Lula ajuda a lembrar uma promessa antiga, mas não substitui a pergunta que importa para o beneficiário: o valor extra cobre a cesta real da família? Se a inflação de alimentos corrói o ganho, o programa vira paliativo. Se o governo só reajusta na reta final, a desconfiança sobre o motivo político é inevitável.
O eleitor mais pobre não precisa de metáfora de churrasco. Precisa de preço de comida sob controle, emprego e um benefício que acompanhe o custo de vida ao longo do mandato — não só nas semanas que antecedem o primeiro turno.




