Moeda norte-americana atinge maior valor de fechamento desde 30 de março enquanto Ibovespa encerra nono pregão consecutivo de queda e juros futuros sobem pelo quinto dia
Da Redação
O dólar emendou o quinto pregão consecutivo de alta nesta sexta-feira (14), ultrapassou o teto de R$ 5,20 no fechamento e encerrou o dia nos maiores níveis desde o fim de março. A moeda brasileira sofreu mais que seus principais pares latino-americanos. A decisão do governo brasileiro de iniciar o processo de adoção de mecanismo de reciprocidade contra o tarifaço americano contribuiu para a percepção de risco.
O real já vinha pressionado pela saída de estrangeiros da bolsa doméstica e pelo aumento da demanda por hedge diante da sensibilidade dos investidores ao ciclo eleitoral. Depois de flertar com os R$ 5,25 no início da tarde, quando registrou máxima de R$ 5,2490, o dólar à vista terminou a sessão em alta de 0,52%, a R$ 5,2199 – maior valor de fechamento desde 30 de março (R$ 5,2478).
A moeda norte-americana fecha a semana com ganhos de 2,68%, o que leva a valorização acumulada em agosto a 2,95%, após baixa de 1,79% em julho. “A adoção do mecanismo de reciprocidade não é o principal motor para o comportamento da moeda, mas adiciona uma nova camada de incerteza à trajetória do real ao aumentar o risco de uma escalada na disputa comercial com os EUA”, afirma o economista-chefe da Pantheon Macroeconomics, Andrés Abadia.
Segundo o economista, o real sofre com um movimento de realização de lucros por conta da reprecificação do risco-Brasil. Investidores estariam revisitando o quadro fiscal e as expectativas para a condução da política econômica a partir de 2027 diante da proximidade da eleição presidencial. “O real provavelmente vai se manter volátil e se tornará cada vez mais sensível às notícias sobre as eleições, aos sinais sobre a política fiscal e ao desenrolar da disputa comercial com os EUA”, afirma Abadia.
Para o head de câmbio da EQI Investimentos, Alexandre Viotto, o início do processo de adoção da reciprocidade abalou as chances de uma recuperação parcial da moeda brasileira nesta sexta-feira. Ele destaca que os importadores estão aumentando a busca por hedge cambial. “Temos uma saída de investidores da bolsa brasileira e um aumento da volatilidade do câmbio, movimento que pode se intensificar até as eleições”, afirma Viotto.
No exterior, o índice DXY – referência do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis moedas fortes – voltou a cair e marcava 99,653 pontos por volta das 17h, em baixa de 0,31%, após mínima de 99,475 pontos. O Dollar Index recua cerca de 0,15% em agosto. Dados das vendas no varejo em julho mostraram queda de 0,6% ante junho, na contramão da expectativa de analistas (+0,1%). “Mesmo com o DXY recuando e o mercado aumentando a expectativa de manutenção de juros pelo Fed em setembro, não há apetite pelo real, que tem um desempenho pior que o de outras moedas emergentes. Isso sinaliza que as questões eleitorais e fiscais domésticas começaram a ganhar um peso maior na formação da taxa de câmbio”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.
Bolsa A melhora do humor dos investidores na reta final do pregão levou o Ibovespa a recuperar os 166 mil pontos e encerrar o dia perto da estabilidade. O índice engatou o nono pregão seguido de queda (-0,10%, aos 166.934,20 pontos), maior série de perdas em três anos. Na semana, o recuo foi de 3,23%. Em agosto, a baixa acumulada já é de 6,22%. Não houve um pregão sequer de alta do índice no mês até agora.
O EWZ, principal ETF ligado a ações brasileiras negociado em Nova York, já tem a pior semana desde o começo de junho ao acumular perdas de mais de 4%, enquanto o EEM, maior ETF ligado aos emergentes, sobe 1,5%. Os estrangeiros seguem retirando recursos da bolsa local na esteira da revisão de recomendação para ativos brasileiros, como a do JPMorgan, que retirou o Brasil da indicação de compra para neutra nesta semana. “Nesse fim de pregão, em particular depois das 16h, o Ibovespa mostrou recuperação, mas não houve nenhuma nova informação, o que sugere que a melhora pode ser considerada um ajuste técnico, após a queda acumulada do índice na semana”, afirma Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset.
O cenário eleitoral é outro tema que pesa sobre os negócios, sobretudo com o início das campanhas a partir deste domingo. “Os candidatos vão ser obrigados a fazer esse dever de casa, mas o investidor quer ver isso e não tem notícia disso”, afirma Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank. “Temos uma economia que está indo devagar e uma expectativa de que os juros e a inflação vão continuar mais altos por um tempo.” O mercado também observa a decisão do Brasil de acionar a Lei de Reciprocidade e notificar o governo norte-americano, como resposta ao tarifaço promovido pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Taxas de juros
Os juros futuros subiram pelo quinto pregão consecutivo, acumulando prêmio de cerca de 30 pontos-base no miolo da curva e aproximadamente 40 pontos no vértice longo nesta semana. Nesta sexta-feira, o exterior também foi adverso, com abertura das taxas dos Treasuries e avanço no preço do petróleo.
O contrato de Depósito Interfinanceiro com vencimento em janeiro de 2027 fechou com taxa de 13,765%, ante 13,746% do ajuste da quinta-feira. O DI para janeiro de 2029 subiu para 14,33%, ante 14,25%. Na ponta mais longa, a taxa do DI para janeiro de 2031 avançou a 14,59%, contra 14,51%. O gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos, avalia que a semana foi marcada pela saída de recursos estrangeiros do país.
Dados da B3 mostram que foram retirados R$ 13,561 bilhões de fluxo externo em agosto até a sessão de quarta-feira (12), e a Bolsa acumulou perda de 3,23% na semana. De forma semelhante, o dólar subiu 2,68%, a R$ 5,2199. O operador sênior Fernando Cesar, da AGK Corretora, comentou que o mercado vira tomador, dólar sobe e puxa os juros.
A analista Julia Thomson, da Eurasia, considera que a decisão do governo Lula de abrir um processo para aplicar a Lei de Reciprocidade é uma medida de pressão para forçar uma negociação com os Estados Unidos, mas não deve levar a ações comerciais contra a administração de Donald Trump ainda em 2026, especialmente antes das eleições. Campos, da Armor, pondera que a questão da reciprocidade parece estar na intenção de puxar o governo americano para a mesa de negociações.
O especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, Gustavo Danilo, afirma que o movimento do governo Lula traz um viés de cautela que adicionou mais prêmio para a curva. Ele acrescenta que o exterior atuou como mais um fator de pressão, com Brent em alta de 1,67% no dia e de 5,95% na semana, indo para US$ 88,52 por barril. A campanha eleitoral começa oficialmente no domingo. Na segunda-feira, destaque para o vencimento de mais de R$ 240 bilhões em Notas do Tesouro Nacional – Série B para 2026, o maior desde 2010.





