Debate realizado durante o seminário “Cultura pra Quê?” aponta a cultura e a memória como ferramentas coletivas de resistência e transformação, fundamentais para imaginar novos modos de existência
Corpo, território e memória não são dimensões separadas: eles se atravessam continuamente, como aspectos interligados de uma mesma vivência no mundo. É nesse entrelaçamento que a cultura emerge como o que estrutura, alimenta e orienta a vida.
O tema foi debatido na manhã do segundo dia do Seminário Internacional “Cultura pra Quê – Centros de arte, decolonialidade e futuros possíveis”, realizado pelo Sesc-DF de 22 a 25 de abril, na 511 Norte do Plano Piloto, onde funcionará o Sesc Cultural.
Para a poetisa, ensaísta, dramaturga e professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais Leda Maria Martins, no Brasil e no mundo, “o olhar colonizador europeu percebeu os povos colonizados a partir de paradigmas de pensamentos nos quais as comparações se deram por modelos do que se considerariam universais”. Com isso, “os seres não brancos se tornam objeto, coisa e equipamento”, o que segue uma “lógica do capitalismo e do mercantilismo”, que caminham junto com o apagamento das memórias.
A mudança dessa lógica — de modo que se compreenda que “a vida na terra é parte da totalidade de totalidades”, como afirma a pesquisadora — passa também pela cultura. Para Leda Maria Martins, essa cultura deve se desvincular do olhar colonizador. “Uma floresta com um único tipo de árvore não é uma floresta, é no máximo um pomar, não importa quão extensa seja. Uma floresta é sempre um conjunto na diversidade”, metaforiza.
Durante o debate, foi levantado ainda que os centros culturais podem ser equipamentos relevantes nas mudanças estruturais para o rompimento com o que hoje se estabelece enquanto sistema. “Acreditamos que as transformações, as revoluções, se fazem nas ruas, nos movimentos sociais. As instituições não podem desarmar o sistema, administrar o sistema. Mas centros culturais como esse, que têm sido uma conquista da classe trabalhadora, se não podem acabar com o sistema, pelo menos podem não sustentá-lo, não reproduzi-lo”, avalia a educadora popular e feminista Adriana Guzmán Arroyo, que é integrante da organização Comunidade Feminista Antipatriarcal e Feministas de Abya Yala.
Segundo Guzmán, “a memória deve servir para descolonizar”. “Memória não é história. A história está nos corpos-ferramenta de mobilização, para nos indignar, para sairmos às ruas”, diz. Entretanto, a ativista boliviana afirma que a memória vem sendo “coisificada, convertida em objeto de consumo”, e dessa forma, acaba perdendo sua capacidade de transformação.
Tanto Leda Maria Martins como Adriana Gusmán Arroyo foram resolutas ao afirmar que as mudanças almejadas, projetadas em expressões culturais, devem ser coletivas, não sendo a raça humana o centro de tudo, mas parte do todo.
Nesse horizonte, a cultura deve ter raízes em uma ética do sujeito coletivo, recusando a lógica da dominação. É preciso fazer da memória um gesto vivo de insurgência, do corpo um território de resistência e do coletivo um espaço onde novas possibilidades de existência possam ser continuamente imaginadas e construídas.
Programação
O primeiro dia do Seminário Internacional “Cultura pra Quê – Centros de arte, decolonialidade e futuros possíveis”, realizado dia 22/4, foi marcado por uma oficina com o artista, contador de histórias, curador independente, teórico cultural e produtor de cinema de Guadalupe Olivier Marboeuf, que iniciou a pintura de painel de grandes proporções, elaborado a partir de criação coletiva, para imaginar futuros possíveis para a cidade.
Já na tarde dessa quinta-feira (23/4), foi realizada a mesa “À margem do mundo”, reunindo o historiador e pesquisador do Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana Claudio Alvaro Lincopi, membro da Comunidad de História Mapuche; a urbanista, arquiteta e professora da USP Raquel Rolnik; e a artista interdisciplinar e escritora Jota Mombaça. O dia foi finalizado com intervenção artística de Paulo Nazareth.
Nesta sexta-feira (24/4), o evento continuará com debates direcionados em dois eixos: “Partir permanecendo” e “Êxodos para um outro fim possível”.
Acesse a programação completa no link https://saibamais.sescdf.com.br/cultura-para-que e assista ao evento ao vivo no canal do Sesc-DF no Youtube https://www.youtube.com/@sescdf



